São antigos no Rio. Documentam-se desde princípios do século XVII.
I. Máximo Ribeiro de Souza. N.c. 1620. Casou com Maria de Barros. Pais de:
2. Manuel Ribeiro de Souza. Deve ter nascido c. 1650. Casou em 9 de maio de 1678 no Rio, na Sé. Sua mulher foi D. Antonia de Meneses, bat. na Candelária em 28 de maio de 1653; o falecimento, ocorrido em 18 de abril de 1713, está registrado na Sé — D. Antonia casou-se duas vezes, tendo sido Manuel o primeiro marido. Era filha de João de Faria Evangelho e de D. Isabel de Meneses, ele sendo da família de Aleixo Manuel, e ela dos Monizes Barretos de Meneses, da ilha da Madeira, donde lhe vinha o Dona. Pais de:
3. Agostinho Ribeiro de Souza. Primeiro do nome; casou com Bernarda de Peralta, cujos pais desconhecemos. Pais de:
4. Agostinho Ribeiro de Souza. Segundo do nome, nasceu em 1724. Casou-se com Clara Maria da Motta, n. 1730, filha de Bartolomeu Gomes de Andrade, dado como sargento, bat. em 1700, e de Tomásia dos Banhos da Motta, bat. 1707, da família de Antonio de Mariz, como já mostrei. Pais de:
5. Clemente José Ribeiro de Souza. N. em 1750. Desse sabemos mais. Casou duas vezes, como consta do assento de seu segundo casamento: era viúvo de Teresa Antonia de Jesus, nascera no Rio, Candelária, filho de Agostinho de Souza e Clara Maria “de Mattos” no assento. Casou-se no Rio (Sacramento 2º/95v) em 18 de agosto de 1805 com Laureana Florinda Nayth n. freguesia de São Mateus, ilha do Fayal, filha natural de Tomásia Francisca. Foram testemunhas do casório: Dr.Teodoro Ribeiro de Paiva e Tomaz Pedro Cotrim de Almeida.
Eram pobres, estes Ribeiros de Souza. Pobres mas educados. Clemente José teria sido organista da igreja de S. Francisco de Paula, no Largo de S. Francisco. Dele Rodrigo Estrella descobriu um documento em que pede uma pensão a D. João VI:
(1817) Diz Clemente José Ribeiro que requerendo a Vossa Majestade Fidelíssima não tanto pelos serviços prestados por seu avô materno Bartolomeu Gomes de Andrade obrados em mais de 62 anos e de seu pai Agostinho de Souza em mais de 34 julgados por sentença do Conselho da Real Fazenda, como dos que também prestou o suplicante no Esquadrão de Cavalaria, no Regimento de Infantaria Miliciana, ter recolhido nos reais cofres 14:754$840 e de estar no exercício atual do Depósito Geral de Contrabandos e Descaminhos aos Reais Direitos, mas sim por graça especialíssima, e por se achar já na avançada idade de 67 anos, acabrunhado de moléstias, com obrigação de mulher e filhas, suplicou a Vossa Majestade pela sua Real Benignidade sem limite haver por bem comiserar-se das ditas suas filhas conferindo para a subsistência delas a supervivência de um ofício, ou qualquer outro benefício que a Vossa Majestade parecesse adequado.
Foi Vossa Majestade servido pela sua costumada clemência e por despacho de 14 de janeiro do presente ano de 1817 haver por bem fazer mercê ao suplicante de uma tença efetiva de 40$R como consta do documento junto e por que a suplica que fez a Vossa Majestade foi logo para três filhas Honoria, Bernarda e Hermenegilda torna o suplicante a pedir a Vossa Majestade por piedade e pela Feliz e Real Aclamação haja por bem de conferir a mesma graça dos serviços de seu avô e pai para as ditas suas três filhas e ainda a respeito do que o suplicante também prestou como tudo se acha legalmente especificado no requerimento, documento e sentença que ajuntou pela secretaria de estado.
Foram os pais de Bernarda Florinda Nayth ou Naite (seria Knight? Night?), n. no Rio em 1805 (Sacramento) e fal. em 12 de outubro de 1844, no largo de S. Francisco de Paula. Sepultada na ordem 3a. do Carmo. Casou em 1 de setembro de 1826 com o comendador Antonio Gomes de Mattos, sr., capitão em 1826 e comendador em 1848.
Esse Antonio Gomes de Mattos, sr., era um homem de posses. Eis os documentos que sobre ele levantou Rodrigo Estrella:
— Requerimentos de ordens honoríficas, que foram aceitos: Ordem de Cristo, 2.08.1824 e Oficial da Ordem da Rosa, 7.09.1847:
— (1830) Diz Antonio Gomes de Mattos, Capitão da 1ª Companhia do 4° Regimento de Cavalaria de 2ª Linha do Exército que a elle, como Capitão mais antigo, coube a honra de comandar em pessoa a força do dito Reg. que fez parte do festejo do dia 17 de outubro do ano próximo passado, como mostra o atestado junto, nesta Província" (Guarda de Honra da Segunda Imperatriz no dia de seu desembarque).
— (1847) No Acantonamento de Vila Nova e Acampamento Brandão onde fez serviço com a Tropa de 1ª Linha que ali se reuniu por ordem de SMI o Senhor Pedro I Augusto Pai de Vossa Majestade Imperial por ocasião de insubordinação de tropa lusitana e oposição da mesma a Independência do Império.
Noutro documento há referência a ele ser proprietário e morador do engenho de açúcar Taquaral em Maricá; junto carta laudatória do alcaide de Maricá.
sábado, 5 de janeiro de 2008
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
Aleixo Manuel
Aleixo Manuel é outro dos neo-antepassados. E é tão interessante quanto Antonio de Mariz. Deve ter chegado ao Rio com Estácio de Sá. Aparece como oficial da câmara do Rio entre 1584 e 1609; entre os vereadores de 1588 é eleito juiz ordinário. (Tiro tudo isso de Elysio Belchior.)
Aleixo Manuel e sua mulher Francisca da Costa fundam, antes de 1596 — provavelmente pouco depois de 1580 — uma ermida onde logo depois se constroi o mosteiro de S. Bento, que a incorpora. Na ermida, em troca de uma doação, os padres beneditinos permitem que lá sejam enterrados os descendentes do casal Aleixo e Francisca.
Aleixo Manuel tinha também casas na rua que logo recebe seu nome, e que conhecemos hoje como rua do Ouvidor: é quem a abre e funda. Os documentos acompanham-no até 1619, quando teria oitenta anos, tendo então nascido em 1539 ou 1540.
Não descendo dele, mas sim de uma sua irmã, Isabel de Faria. Casa-se esta com João Gonçalves Evangelho.
Pais de Antonio de Faria Albernaz (o nome de Aleixo era Aleixo Manuel Albernaz). Nascido no Rio c. 1595, faleceu em 1663 em Taubaté, SP. Casou com Catarina de Cisneiros.
O filho, João de Faria Evangelho, n.c. 1620, casa com D. Isabel de Meneses, cuja ascendência muito nobre descrevo logo em seguida. O Dona, tratamento a que tinha o direito, era usado por todas as senhoras que descendiam da família dos Monizes Barretos de Meneses, como era o caso de D. Isabel.
Pais de D. Antonia de Meneses, batizada em 1653 na Candelária e falecida na mesma freguesia em 1713. Casou-se em 1678 com Manuel Ribeiro de Souza.
Pais de Agostinho Ribeiro de Souza (I), casado com Bernarda de Peralta; avós de Agostinho Ribeiro de Souza (II), n. 1724, casado com Clara Maria da Motta; e bisavós de Clemente José Ribeiro de Souza, n. 1750, casado com Lauriana Florinda Naite.
Pais, Clemente e Lauriana, de Bernarda Florinda Naite, mulher de Antonio Gomes de Matos Sr.
Aleixo Manuel e sua mulher Francisca da Costa fundam, antes de 1596 — provavelmente pouco depois de 1580 — uma ermida onde logo depois se constroi o mosteiro de S. Bento, que a incorpora. Na ermida, em troca de uma doação, os padres beneditinos permitem que lá sejam enterrados os descendentes do casal Aleixo e Francisca.
Aleixo Manuel tinha também casas na rua que logo recebe seu nome, e que conhecemos hoje como rua do Ouvidor: é quem a abre e funda. Os documentos acompanham-no até 1619, quando teria oitenta anos, tendo então nascido em 1539 ou 1540.
Não descendo dele, mas sim de uma sua irmã, Isabel de Faria. Casa-se esta com João Gonçalves Evangelho.
Pais de Antonio de Faria Albernaz (o nome de Aleixo era Aleixo Manuel Albernaz). Nascido no Rio c. 1595, faleceu em 1663 em Taubaté, SP. Casou com Catarina de Cisneiros.
O filho, João de Faria Evangelho, n.c. 1620, casa com D. Isabel de Meneses, cuja ascendência muito nobre descrevo logo em seguida. O Dona, tratamento a que tinha o direito, era usado por todas as senhoras que descendiam da família dos Monizes Barretos de Meneses, como era o caso de D. Isabel.
Pais de D. Antonia de Meneses, batizada em 1653 na Candelária e falecida na mesma freguesia em 1713. Casou-se em 1678 com Manuel Ribeiro de Souza.
Pais de Agostinho Ribeiro de Souza (I), casado com Bernarda de Peralta; avós de Agostinho Ribeiro de Souza (II), n. 1724, casado com Clara Maria da Motta; e bisavós de Clemente José Ribeiro de Souza, n. 1750, casado com Lauriana Florinda Naite.
Pais, Clemente e Lauriana, de Bernarda Florinda Naite, mulher de Antonio Gomes de Matos Sr.
Antonio de Mariz (II)
Elysio Belchior fala que Antonio de Mariz, ou Marins, era neto de certo Lopes de Mariz, armigerado em 1534. No Nobiliário de Gayo, título “Marizes,” encontro no § 3, 14, um certo Antonio de Mariz, filho de Afonso Lopes de Mariz, com carta d'armas passada em 14.09.1534. Dá a referência: Livro dos Privilégios de 1535, a fls 29, v.
A carta d'armas está em Sanches de Baena, e nela se diz que este Antonio era neto de um Lopo (e não Lopes) de Mariz — logo, Elysio Belchior deu uma mixagem nos canais. O Antonio supra, de 1534, seria filho de Affonso Lopes de Mariz e neto de Lopo de Mariz; todos vivendo em Vila do Conde, mas sendo originários de Barcelos. Pode ser que o Antonio de Mariz que vive no Brasil seja filho do Antonio de Mariz armigerado em 1534.
(Uma nota de hoje na portugal-gen afirma que o armigerado de 1534 era o próprio Antonio de Mariz. Pode ser, pela cronologia.)
A carta d'armas está em Sanches de Baena, e nela se diz que este Antonio era neto de um Lopo (e não Lopes) de Mariz — logo, Elysio Belchior deu uma mixagem nos canais. O Antonio supra, de 1534, seria filho de Affonso Lopes de Mariz e neto de Lopo de Mariz; todos vivendo em Vila do Conde, mas sendo originários de Barcelos. Pode ser que o Antonio de Mariz que vive no Brasil seja filho do Antonio de Mariz armigerado em 1534.
(Uma nota de hoje na portugal-gen afirma que o armigerado de 1534 era o próprio Antonio de Mariz. Pode ser, pela cronologia.)
Sangue negro

Diocleciano da Costa Doria Filho, o “Tio Doria,” meu tio-avô, nasceu em Estância, SE, em novembro de 1870, e morreu no Rio em 1896. Era engenheiro civil, formado em 1895. Morreu de tuberculose.
Bem apessoado, brilhante, teve sua negritude explícita herdada da bisavó, D. Jacinta Clotildes do Amor Divino, consuetidunariamente casada com o cônego Antonio Luiz de Azevedo, † 1848, srs. do engenho Palmeira em Lagarto, Sergipe.
Depois conto a história do caso de amor entre o cônego e D. Jacinta, meus tetravós.
O que isso mostra: sangue d'África me chega de todos os costados.
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
Dom Antonio de Mariz
Destes meus neo-antepassados, Dom Antonio de Mariz, ou melhor, Antonio de Marins Coutinho, é, junto com Aleixo Manuel, dos mais interessantes. Digo neo-antepassados porque só os conheci há uns meses, graças ao Rodrigo Estrella; com Acciaiolis e Dorias e Moraes convivi a vida toda. Com estas linhas de cariocas quatrocentões, quase quinhentões, estou ainda me habituando.
José de Alencar era mau historiador. Ou pouco passava, do que soubesse de história, para os romances. Para começar, nada de “Dom” Antonio de Mariz. Só Antonio de Marins Coutinho, sem o Dom. Poucas famílias, na verdade, levavam o Dom, então, em Portugal, além da casa real e de uns poucos titulares: um ramo dos Mascarenhas, os Costas do Armeiro-Mor, os Silveiras dos Barões de Alvito, Manuéis e ramos dos Mellos, ambos descendendo de diferentes bispos da Guarda, de quem tiraram o tratamento; alguns ramos dos Sousas do Prado; os Almadas.
Era também mau heraldista. Cita, logo no começo de O Guarani, as armas dos Marizes ou Marins: seguindo as convenções da heráldica, estas são de azul com cinco vieiras de ouro, em cruz, acompanhadas de quatro rosas de prata. Timbre: um leão de ouro, nascente. Bom, eis como Alencar blasona, confusissimamente, o mesmo escudo d'armas: em campo de azul cinco vieiras de ouro riscadas em cruz entre quatro rosas de prata sobre palas e faixas. (...) E por timbre um meio leão de azul com uma vieira de ouro sobre a cabeça.
Antonio de Marins Coutinho, o personagem histórico, morre em 1584, ou pouco antes, porque naquele ano é substituído como mamposteiro-mor dos cativos. Fora provedor da fazenda real no Rio, ao menos desde 1563. Alencar coloca as terras de Dom Antonio de Mariz à sombra do Dedo de Deus — cenário romântico — onde vai ser Teresópolis no século XIX, às margens do rio Paquequer. Antonio de Marins Coutinho tem terras nas margens da baía da Guanabara, pelo centro urbano carioca, e uma sesmaria na área dos rios Inhomirim e Saracuruna, pela Raiz da Serra.
A família de Dom Antonio de Mariz, em O Guarani, era formada pela mulher Dona Lauriana, pelo filho Dom Diogo, pela filha Dona Cecilia, e por uma bastarda, Dona Isabel. Na realidade histórica, Antonio de Marins Coutinho nasce em Barcelos antes de 1540; morre, segundo Rheingantz, numa emboscada de índios antes de setembro de 1584. Casou com Isabel Velha em Portugal, em Ponte de Lima; foi feito cavaleiro fidalgo da casa real em 18 de janeiro de 1578. Chegara ao Rio em 1558, ou talvez um pouco antes.
Tiveram filhos: o Dr. Diogo de Marins Loureiro, 2o. provedor da fazenda real no Rio; Antonio de Mariz, o moço; Isabel de Mariz ou Marins, que não era bastarda, casada com Crispim da Cunha Tenreiro; Maria de Mariz, casada com Tomé de Alvarenga; Francisco de Mariz, casado. Todos com sucessão.
Há uma certa incerteza na linha que vai de Antonio de Marins Coutinho até vovó. Descendemos de um Antonio de Mariz, cuja filha vai ser Maria dos Anjos, casada com Antonio de Andrade. Este, segundo a opinião do Barata, é o Antonio, batizado em 1652, filho bastardo de João de Mariz, batizado em 1617, e da escrava Helena, escrava de Tomé Rodrigues; neto de Francisco de Mariz ou Marins Loureiro, n.c. 1582, casado com Ângela dos Banhos, filha de Vicente de Banhos e de Luiza de Castilho.
Antonio de Andrade e Maria dos Anjos, esta filha de um Antonio de Mariz que tentei entroncar acima, foram os pais de Bartolomeu Gomes de Andrade, batizado em 1700, casado com Tomásia dos Banhos da Motta — filha de Manuel dos Banhos da Motta e de Micaela, escrava preta do gentio da Guiné. A filha de Bartolomeu e Tomásia, Clara Maria da Motta, n. 1730, casou-se com Agostinho Ribeiro de Souza, n. 1724. Pais, enfim, de Clemente José Ribeiro de Souza, n. 1750, casado com Lauriana Florinda Naite, n. 1779, filha bastarda de Tomásia Francisca, sem identificação do pai.
Bernarda Florinda Naite, filha de Clemente e Lauriana, nasce no Rio em 1805, onde falece em 1844. Casa com Antonio Gomes de Mattos, senior, em 1826. Foram os pais de Antonio Gomes de Mattos Jr., avô materno de vovó. (Vejam o nome da mulher de Clemente: Lauriana, o nome que Alencar escolhe para o da mulher de Dom Antonio de Mariz. Fascinante coincidência.)
E, noto: nesta linha descendemos de duas, possivelmente três escravas: Helena, com quem tem filho João de Mariz; Micaela, do gentio da Guiné, e, talvez, alguma ancestral de Tomásia Francisca, mãe de Lauriana Florinda Naite.
José de Alencar era mau historiador. Ou pouco passava, do que soubesse de história, para os romances. Para começar, nada de “Dom” Antonio de Mariz. Só Antonio de Marins Coutinho, sem o Dom. Poucas famílias, na verdade, levavam o Dom, então, em Portugal, além da casa real e de uns poucos titulares: um ramo dos Mascarenhas, os Costas do Armeiro-Mor, os Silveiras dos Barões de Alvito, Manuéis e ramos dos Mellos, ambos descendendo de diferentes bispos da Guarda, de quem tiraram o tratamento; alguns ramos dos Sousas do Prado; os Almadas.
Era também mau heraldista. Cita, logo no começo de O Guarani, as armas dos Marizes ou Marins: seguindo as convenções da heráldica, estas são de azul com cinco vieiras de ouro, em cruz, acompanhadas de quatro rosas de prata. Timbre: um leão de ouro, nascente. Bom, eis como Alencar blasona, confusissimamente, o mesmo escudo d'armas: em campo de azul cinco vieiras de ouro riscadas em cruz entre quatro rosas de prata sobre palas e faixas. (...) E por timbre um meio leão de azul com uma vieira de ouro sobre a cabeça.
Antonio de Marins Coutinho, o personagem histórico, morre em 1584, ou pouco antes, porque naquele ano é substituído como mamposteiro-mor dos cativos. Fora provedor da fazenda real no Rio, ao menos desde 1563. Alencar coloca as terras de Dom Antonio de Mariz à sombra do Dedo de Deus — cenário romântico — onde vai ser Teresópolis no século XIX, às margens do rio Paquequer. Antonio de Marins Coutinho tem terras nas margens da baía da Guanabara, pelo centro urbano carioca, e uma sesmaria na área dos rios Inhomirim e Saracuruna, pela Raiz da Serra.
A família de Dom Antonio de Mariz, em O Guarani, era formada pela mulher Dona Lauriana, pelo filho Dom Diogo, pela filha Dona Cecilia, e por uma bastarda, Dona Isabel. Na realidade histórica, Antonio de Marins Coutinho nasce em Barcelos antes de 1540; morre, segundo Rheingantz, numa emboscada de índios antes de setembro de 1584. Casou com Isabel Velha em Portugal, em Ponte de Lima; foi feito cavaleiro fidalgo da casa real em 18 de janeiro de 1578. Chegara ao Rio em 1558, ou talvez um pouco antes.
Tiveram filhos: o Dr. Diogo de Marins Loureiro, 2o. provedor da fazenda real no Rio; Antonio de Mariz, o moço; Isabel de Mariz ou Marins, que não era bastarda, casada com Crispim da Cunha Tenreiro; Maria de Mariz, casada com Tomé de Alvarenga; Francisco de Mariz, casado. Todos com sucessão.
Há uma certa incerteza na linha que vai de Antonio de Marins Coutinho até vovó. Descendemos de um Antonio de Mariz, cuja filha vai ser Maria dos Anjos, casada com Antonio de Andrade. Este, segundo a opinião do Barata, é o Antonio, batizado em 1652, filho bastardo de João de Mariz, batizado em 1617, e da escrava Helena, escrava de Tomé Rodrigues; neto de Francisco de Mariz ou Marins Loureiro, n.c. 1582, casado com Ângela dos Banhos, filha de Vicente de Banhos e de Luiza de Castilho.
Antonio de Andrade e Maria dos Anjos, esta filha de um Antonio de Mariz que tentei entroncar acima, foram os pais de Bartolomeu Gomes de Andrade, batizado em 1700, casado com Tomásia dos Banhos da Motta — filha de Manuel dos Banhos da Motta e de Micaela, escrava preta do gentio da Guiné. A filha de Bartolomeu e Tomásia, Clara Maria da Motta, n. 1730, casou-se com Agostinho Ribeiro de Souza, n. 1724. Pais, enfim, de Clemente José Ribeiro de Souza, n. 1750, casado com Lauriana Florinda Naite, n. 1779, filha bastarda de Tomásia Francisca, sem identificação do pai.
Bernarda Florinda Naite, filha de Clemente e Lauriana, nasce no Rio em 1805, onde falece em 1844. Casa com Antonio Gomes de Mattos, senior, em 1826. Foram os pais de Antonio Gomes de Mattos Jr., avô materno de vovó. (Vejam o nome da mulher de Clemente: Lauriana, o nome que Alencar escolhe para o da mulher de Dom Antonio de Mariz. Fascinante coincidência.)
E, noto: nesta linha descendemos de duas, possivelmente três escravas: Helena, com quem tem filho João de Mariz; Micaela, do gentio da Guiné, e, talvez, alguma ancestral de Tomásia Francisca, mãe de Lauriana Florinda Naite.
Vovó e a Oitava Sinfonia de Mahler

O retrato de vovó, Herminia Cresta Mendes de Moraes ou, de solteira, Herminia Gomes de Mattos Cresta, data de 1958. Ela, com setenta anos, festejando as bodas de ouro com vovô, Justo Rangel Mendes de Moraes; tinham casado em 28 de julho de 1908.
Em 1909 o bivô, Luiz Mendes de Moraes, fora brevemente ministro da guerra de Affonso Penna. Affonso Pena morre, é substituído por Nilo Peçanha. Este convoca meu bisavô e diz, General Mendes de Moraes, tenho plena confiança no sr., quero que continue no ministério. Responde meu bisavô: presidente, a confiança deve ser mútua. Me demito.
O bivô liderava uma ala do exército; no ostracismo, foi procurado por representantes do governo imperial alemão, que o convidaram, e à família, para visitar centros militares na Alemanha. Aceitou, e embarcam para a Europa o bivô, a bivó, Cecilia Rangel Mendes de Moraes (antes Cecilia Ferreira Rangel), vovô, vovó e Tia Maria, recém-nascida. A visita é muito solene; meus bisavós são recebidos inclusive em audiência privada pelo Kaiser, Wilhelm II, que lhes oferece um retrato autografado.
Em outubro de 1910 estão em Munique. Vovó me contou que ouviu comentários na cidade sobre a estréia mundial de uma sinfonia de um certo compositor austríaco. Vovó pergunta ao concierge do hotel se valia a pena assistir ao espetáculo. Responde o infeliz: vai ser um espetáculo circense; não vale a pena ir.
E assim vovó deixou de assistir à estréia mundial da Oitava Sinfonia de Mahler, a Sinfonie der Tausend, Sinfonia dos Mil. (Isso me contou ela no hall do andar do meio da Casa da Vovó, em frente à mesa que estava sempre coberta com revistas velhas, sentada na poltrona com uma arca junto da parede do banheiro, do outro lado das portas para seus apartamentos privados.)
Li pela primeira vez sobre a Oitava Sinfonia de Mahler na Pequena Enciclopédia de Conhecimentos Gerais, traduzida e aumentada pelo Almir de Andrade: dizia, numa nota ao pé da página, que embora sinfonias de Mozart e Haydn durem quinze, vinte minutos, a Oitava Sinfonia de Mahler durava mais de uma hora. Associei na hora, na minha cabeça, aquele nome, Gustav Mahler, a uma figura rotunda e solene, e me espantei ao ver tempos depois o desenho de Orlik, o retrato de Mahler em perfil, rosto magro, nariz afilado; nada rotundo.
Ouvi pela primeira vez a Oitava Sinfonia em 1960, num dos vesperais sinfônicos da rádio Mec (não existem mais, e nem a ópera das 5 da tarde dos domingos; lá, agora, na Rádio Mec, só dá samba). Me ficou uma idéia confusa, dissonante, da sinfonia; era a gravação de Eduard Flipse, com a Sinfônica de Rotterdam, e mais de mil executantes, sim. Comprei essa mesma gravação uns dois anos depois. Papai odiava; mamãe, sem ouvido musical, era-lhe indiferente. Em 1964 comprei Das Lied von der Erde, na gravação regida por Hans Rosbaud; é, em minha opinião, a obra-prima de Mahler, e a orquestração mais perfeita que jamais se fez.
Em tempo: vovó era filha de Emmanuel Cresta, genovês, e de Leonor Gomes de Mattos; neta paterna de Vittorio Cresta e de Erminia Notaroberti, ele genovês e ela napolitana; neta materna de Antonio Gomes de Mattos Jr. e de Joaquina Rosa de Oliveira Costa, a Joaquina da Praia da Joaquina.
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