sexta-feira, 20 de julho de 2007

Texto do Manuel

http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=442FDS009

domingo, 27 de maio de 2007

Cristóvão da Costa Doria e o inquisidor, 1592

Apenas como registro: um documento histórico inédito, que está nos ANTT.

Aos ujnte e seis dias do mes de ojtubro/ de mil e qujnhentos e nouenta e dous/ annos nesta cjdade do Saluador — / Capitanja da bahia de todos os Santos/ nas casas da morada do s.or ujsita-/dor do s.to offj.o hejtor furtado de men-/doça perante elle pareçeo sendo/ chamado Cristovão da costa o qual/ reçebeo o juramento dos Santos/ euangelhos em que pos sua mão de-/rejta sob cargo do qual prometeo/ dizer uerdade e foj logo amoes-/tado com mujta carjdade pello/s.or vjsitador que declare e com-/fesse todas suas culpas per que em-/tende ser chamado a esta mesa e por-/que lhe aprouejtara mujto para/ descargo de sua concjencja e seu// bom despacho, respondeo q não sente/ em si ne sabe por que he chamado &/ foi logo perguntado se despois que/ elle ujo aconteçer os casos de gaspar/ rebello disser que não era tamanho/ peccado dormir com pagãa como co˜/ cristãa, ¶ o caso de bernardo Rib.ro/ a cerqua dafee que se auja de saluar/ sobre os quais elle Reo Ja foj chamado/ e perguntado nesta mesa se tratou/ ou fallou, ou conuersou cõ os sobre dittos/ Respondeo que Sim se fallão mujtas/ Vezes e sam amigos, e o djto gaspar/ rebello he filho de hum prjmo de mar-/tim carualho cunhado delle e foj logo/ perguntado quem he ho que tratou/ cõ elle q não ujesse denunciar a/ esta mesa contra os Sobredictos casos/ Respondeo que njnguem lhe co-//meteo tal — perguntado se quando/ elle ueo a esta mesa denuncjar o q/ lhe contou NicoLao falleiro e o P.e joam/ fez. dentro nos trjnta djas da obrj-/gação d elle dejxou de denuncjar/ as djttas cousas dos sobredjttos seus/ amjgos lembrando lhe mujto bem/ se aduertio elle que em callar as dj-/tas cousas ficaua excomungado/ com forme o monjtorjo geral/ Respondeo que quando elle ueo a esta/ mesa no djto tempo, e despois delle/ o nunca lhes lembrarão as djttas cou-/sas e que por lhe não lembrarem as/ não dixe ne denuncjou porque se lhe/ Lembrarão não ouuera de deixar/ de as denuncjar por nenhures fejto/ Jnda q forão contra seu paj, e foi lhe/ declarado que esta forte presumpção// contra elle que pois elle he amjgo dos/ sobredjttos e sempre presentes na/ mesma terra e as sobredjttas cou-/sas de tanta sua tancja [?] que pareçe/ que não se auja a elle de esquecer — / respondeo que as sobredjttas cou-/sas acontecerão mujto tempo ha - / e que nunca lhe lembrarão se não/ quando elle s.or ujsitador lhe tocou/ nesta mesa na materja dellas, e foj/ logo amoestado que se as dejxou/ de denuncjar lembrando lhe , esta/ excomungado a qual excomunhão,/ não pode njmguem absoluer senão elle vjsitador, que portanto/ declare a uerdade, porque aquj/ tractasse da Saluação de sua alma/ respondeo que nunca lhe lembrarão/ como djtto ten e que tem djtto a uer-/dade e asignou cõ o s.or ujsitador/ Manoel fr.co Notr.o do s.to offj.o nesta vj-/sitação o escreuj. E foi lhe manda-/do que não se saja desta cjdade/ sem licença desta mesa o sobre-/ditto o escreueu Xpouão da Costa Mendoça



Aos vjnte e sete djas do mes do oi-/tubro de mjl e qujnhentos e noveta/ e dous annos nesta cjdade do sal-/vador capitanja da bahia de todos/ os sanctos nas casas da morada/ do sor. vjsitador do Sancto offj.o hejtor/ furtado de mendoça perante elle/ pareçeo Sendo chamado Cristovão/ da Costa conteudo nestes autos e/ recebeo Juramento dos Sanctos// euangelhos em que pos sua mão derejta/ sob cargo do qual prometeo dizer ver-/ dale e logo foj tornado amoestar/ pelo sor. ujsitador com mujta carj-/ dade que acabe de fazer confissao/ jntr.a e uerdadr.a e declare quem ho/ persuadio, que não denuncjasse/ as sobre djttos culpas nesta mesa/ contra os djttos gaspar rebello, e/ bernardo Ribr.o, respondeo que njn-/guem tal lhe cometeo ne˜ persuadio/ que tal dejxasse de denuncjar mas/ que ha uerdade he que lhe esque-/ceo e nunca tal lhe lembrou quãdo/ veo a esta mesa no termo do monj-/torio geral ne˜ despois se não quã-/do elle ditto sor. ujsitador manda-/do chamar a esta mesa despois de/ mujtas enterogaçõis lhe tocou na// materia das djttas culpas, porq˜ se/ dantes lhe lembraua nenhua rezão/ de cunhadio ne˜ parentesco ne˜ amj-/zade lhe ouuera de estouar que dej-/xasse de fallar a uerdade nesta mesa/ e foj perguntado de sua genelogia/ dixe que he cristão uelho filho de fer-/não vaz da costa e de sua molher cle-/mencja dorja genevesa não conhe-/ceo seus auoos mas ouujo q seu a-/voo paj de seu paj se chama cristo-/uao da costa desembargador que/ foi em Lix.a e sua avoo maj de seu paj/ se chamaua gujmar camjnha, e ouujo/ dizer que seu avoo paj de sua maj se/ chamaua andre dorja, teue tias Jr-/mãas de seu paj florença da costa/ e dona fr.ca da costa molher que foj/ de Ant.o correa moradoras em Lix.a/ não conheçeo tios da parte de sua maj/ teue hum jrmão, que matarão em/ Lix.a chamado Njcolao da Costa/ soltr.o e outros que morrerão e tem/ tres Jrmãas ujuas – S – Luisa dorja mo-/lher de Martim Carualho, e fr.ca de Saa/ molher de fr.co dabreu da costa e Anna/ dorja Jnda soltr.a e os djttos seus cu-/nhados são cristãos uelhos e djxe q˜/ Sabja a doutrjna cristãa e em/ fim pedjo despacho com breujda-/de e asinou co˜ o sor. ujsitador/ Manoel fr.co Notr.o dos +os offj.o nesta/ ujsitação o escreui.

Mendoça Xpouão da Costa

O Reo Affirma q não deixou/ de denunciar nesta mesa as cousas/ de q aqui se trata, por malicia,/ senão por não lhe lembrarem: E/ não ha do contrairo proua algua/ contra Elle. Pello q Vaa/ se Em boa hora. Baja 9/ dez.ro 1592 Mendoça

quinta-feira, 24 de maio de 2007

O gato do Zio Andrea



O quadro enche a parede lateral num dos salões do Palazzo del Principe. Não tem cores: só tons de marron, e violeta, e um vermelho-ferrugem onipresente. De largo, quase dois metros. Data, ao que parece, de 1560, ano da morte de Andrea Doria, e deve-se a um pintor veneziano anônimo, qualificado nos catálogos como “primitivo.”

Por que o Zio Andrea foi colocado diante do gato tabby que o observa? Não sei. Mas esse gato é igualzinho à nossa Domitilla, aqui em casa.

Em tempo: está aqui o parentesco a Andrea Doria — bastante próximo. Tiro isso de Battilana, Doria, tav. 23:

1. Niccolò Doria, filho de Babilano; atestado em 1292 e em 1310. Sr. de Oneglia. p.d. (e.o.):

2. Cattaneo Doria, † antes de 1314, c.c. Margherita.. . P.d.(e.o.):

3. Antonio Doria ou Aitone Doria, que morre na batalha de Crécy, onde comandava os besteiros genoveses a serviço dos franceses. P.d. (e.o.):

- Ceva Doria. c.c. Maria di Gaspare Grimaldi. Pais de Francesco Doria, atestado em 1417, c.c. Caterina Grimaldi, dos senhores de Antibes, filha de Giorgio Grimaldi. Pais de, e.o., Ceva Doria, co-senhor de Oneglia, † c. 1470, c.c. Caracosa Doria, filha de Enrichetto Doria, sr. de Dolceacqua. Pais de Andrea Doria (1466-1560), príncipe de Melfi.

- Lodisio Doria. C.c. Alterisia... P.d. Aloisia ou Luigia, atestada em 1417, c.c. Battista di Napoleone Lomellini. Destes descendem os Lomellinis da Madeira, e do casal Lomellini-Doria era filha a mulher de Lodisio Centurione Scotto, nostra antenata.

domingo, 20 de maio de 2007

Gênova, 13 de maio de 2007


Diante dos Dorias do século XIV, na Galleria degli Eroi, dando para os jardins do Palazzo del Principe. Mariana, sábado, me sugeriu que a gente desse um pulinho a Gênova — estávamos em Turim — e na manhã de domingo, dez horas, desembarcávamos na estação de Genova-Brignole. Fomos direto à Piazza San Matteo, ver a igrejinha (l'abbazia dei d'Oria) e os palácios medievais de Branca, Domenicaccio, Lamba e Andrea Doria — este último, na verdade construído em meados do século XV.

Depois fomos ao Palazzo del Principe, a residência de Andrea Doria. Aí em cima estou debaixo de Pagano Doria (o da capa vermelha). Ao lado, de veste verde, Luciano Doria. O de barba branca como eu é Pietro Doria. Pagano Doria venceu, no Bósforo, a frota greco-veneziana-catalã, em 1352; dois anos depois incendiou Parenzo, e de sua catedral trouxe as relíquias de S. Mauro e S. Eleutério, depositadas na igreja de S. Matteo. Era filho de Gregorio di Niccolò Doria (em Battilana, tav. 44). Luciano Doria, filho de Ugolino, saqueou Rovigo, e venceu em batalha ao almirante veneziano Vettor Pisani. Tomou, de Cittanova d'Istria, relíquias de S. Massimo, também depositadas em S. Matteo em 1381. (Sua filha Andreola casou com Niccolò di Acciò Doria, de quem descendo.) Pietro Doria, enfim, co-senhor de Loano, é quem quase tomou Veneza, tendo morrido em combate naquela cidade em 1380. Era trineto do grande Oberto Doria.

Melhor foi o comentário do carinha no bookstore do Palazzo del Principe: questo Andrea Doria il vostro zio era stato un vero furbaglione. Ou seja: vigaristão...

quinta-feira, 8 de março de 2007

Baudrillard em Petrópolis, 1983


Em 1983, mal chegando eu de volta à Escola de Comunicação, Muniz Sodré me pega e diz, Baudrillard quer passear por Petrópolis. Você convida ele? Claro que sim. Vieram Muniz, Marcio, Fabio Lacombe, Alfredo de Sá Earp Hertz, Claudia, minha cunhada, também arquiteta como Alfredo. Dia bonito, fizemos um churrasco.

Foi num sábado. Baudrillard passeou por Petrópolis, e ficou fascinado, encantado, com o contraste entre a arquitetura eclética, fim de século XIX, das partes tombadas da cidade, e o mato tropical furioso como pano de fundo. Depois veio cá pra casa, comer carne, beber cerveja e caipirinha. Botou uma sunguinha quase fio-dental, nadou, bebeu, comeu, nadou, mijou na grama e, no fim, se esticou ao sol, no gramado, e tirou uma soneca.

Na foto de cima: Muniz, Alfredo e Baudrillard. Na de baixo, Muniz, Alfredo, Baudrillard e Fabio.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Heracles, um ancestral do tempo da guerra de Tróia (século XIII a.C.)

Depois traço essa linha, com a ajuda do livro de Settipani, Nos Ancêtres de l'Antiquité. No atacado, digamos assim, deve estar correta — e descendemos de Heracles, o dos trabalhos, eu e todo o Ocidente.

Heracles é o primeiro ancestral da dinastia dos Filípidas da Macedônia, de onde provêm Alexandre o Grande e seu pai Filipe II. E' também o antepassado dos Heráclides, família real da Ásia Menor da qual descendia Heráclito de Éfeso. Segundo a lenda, foi o protetor de Podarces, depois Príamo, rei de Troia. Príamo é, com frequência, identificado a Piyama-Radu, um personagem cujas aventuras bélicas estão contadas na “Carta de Tawagalawas.” E Tawagalawas é, com certeza, Eteocles (Etewekelewes), irmão de Polinice, rei usurpador de Tebas, e filhos de Édipo. Kádmos, o fundador de Tebas, está atestado historicamente, segundo descoberta arqueológica recente. Todos unidos num mesmo contexto lendário, é plausível que tenha existido um personagem que vai dar substrato à figura mítica de Heracles. Assim como, decerto, Édipo, túrannos de Tebas.

Soeiro da Costa (c. 1390-1472), um dos “Doze de Inglaterra”

Soeiro da Costa era pai de Afonso da Costa, alcaide-mor de Lagos, e avô do Dr. Cristóvão da Costa. Foi um dos “Doze de Inglaterra.”

Não há prova de sua filiação; mas foi, com certeza, filho ou neto de Afonso Lopes da Costa, que é atestado em Lagos em 1401, talvez já falecido a esta data. Soeiro teve um filho Afonso, e descendia de outro Soeiro, na linha de Afonso Lopes, que provinha dos alcaides-mores de Évora.

É um herói da cavalaria tarda. Conta-se que, tendo sido doze damas inglesas da melhor nobreza ofendidas em sua honra por doze fidalgos da terra, apelaram aquelas a seu rei, para que designasse campeões que por elas se batessem; mas nenhum campeão que lutasse pelas damas foi encontrado na Inglaterra. Lembrou-se então o rei que portugueses batiam-se com bravura e destemor, e apelou a cavaleiros de Portugal, para que viessem lutar pelas damas ofendidas. Doze cavaleiros lusos enfrentaram então em justas os doze ingleses ofensores, e venceram-nos, assim lavando a honra das damas inglesas. Esses doze cavaleiros ficaram desde então conhecidos como os Doze de Inglaterra. Os nomes desses cavaleiros - na verdade treze, em número - são conhecidos, e são, todos, personagens historicamente atestados: Alvaro Vaz de Almada (depois Conde de Avranches); Alvaro Gonçalves Coutinho, dito “o grão Magriço”; João Fernandes Pacheco e Lopo Fernandes Pacheco (filhos de Diogo Lopes Pacheco, um dos assassinos de D. Inês de Castro); Alvaro Mendes Cerveira e Rui Mendes Cerveira, também irmãos; João Pereira Agostim; Soeiro da Costa; Luis Gonçalves Malafaia; Martim Lopes de Azevedo; Pedro Homem da Costa; Rui Gomes da Silva e Vasco Anes da Costa, dito “Corte Real.”

Destes nos vai interessar Soeiro da Costa. Assim, diz o cronista Gomes Eanes de Zurara (1410-1474) na sua Crônica dos feitos da Guiné, “Ca hera hi Sueiro da Costa, alcaide daquella villa de Lagos, o qual era homem nobre e fidalgo, criado de moco pequeno na camara delrrey dom Eduarte [D. Duarte] e que se acertava de seer em muy grandes fectos; ca elle fora na batalha de Monvedro, com elrrey dom Fernando dAragom contra os de Vallenca, e assy no cerco de Vallaguer, em que fezerom muy grandes cousas, e foe com elrrey Lancaraao [Ladislau], quando barrejou a cidade de Roma; e andou com elrrey Luis de Proenca [de Provença], em toda a sua guerra. E esteve na batalha da Ajancout [Azincourt], que foe hua muy grande e poderosa batalha entre elrrey de Franca e elrrey de Jngraterra. Efora ja na batalha de Vallamont, cabo de Caaes, com o conde estabre de Franca contra oduque dOssestre, e na batalha de Monseguro [Montségur], em que era o conde de Fooes [Foix] e o conde dArminhaque [d’Armagnac], e na tomada de Samsooes [Soissons] e no decerco de Ras [Rheims?] e assy no decerco de Cepta [Ceuta] Nas quaaes cousas sempre provou, coomo muy vallente homem darmas.” (Algumas datas, para se precisar a cronologia: em 1411 acontece a batalha entre Luiz de Anjou, rei de Provença e Ladislau de Durazzo, rei de Napoles; em 27.2.1412 ocorre a batalha de Murviedro; de 1.8.1413 a 31.10.1413, o cerco de Balaguer; entre 1412 e 1413, a batalha de Montségur; em 1414, o cerco de Roma; em 25.10.1415, a batalha de Azincourt; e em 1418-1419, o cerco de Ceuta.)

Podemos reconstituir a biografia de Soeiro da Costa, em parte sobre conjecturas, em parte sobre o testemunho de crônicas como a de Zurara, e em parte sobre documentos. Soeiro da Costa terá nascido c. 1390, muito provavelmente em Tavira ou em Lagos, se seu avô (pai?) tiver sido - como se discutiu já - Afonso Lopes da Costa, que recebeu em 1384, do Mestre de Aviz, o prazo de uma azenha em Tavira. Em seguida vemos, já com vinte anos ou quase, Soeiro da Costa batendo-se nos principais campos de batalhas de começos do século XV, como o fizeram também Alvaro Vaz de Almada e o “grão Magriço.” Nos documentos, Soeiro da Costa aparece pela primeira vez em 8.5.1433, quando D. Duarte nomeia-o para o cargo de almoxarife de Lagos no Algarve, dizendo-o “seu criado.” Em 18.5.1439 D. Afonso V chama-o alcaide em Lagos no ato em que lhe concede uma tença anual de 200 000 libras. Está como alcaide-mor e almoxarife até 1450, embora seu genro Lançarote da Ilha apareça como almoxarife em 11.4.1443. Soeiro da Costa renuncia à alcaidaria-mor de Lagos em 1452, e em 5.2.1452, a pedido do infante D. Henrique, D. Afonso V nomeia Afonso da Costa, filho de Soeiro, para o posto de alcaide-mor de Lagos (em 3.1.1486 D. João II confirma Afonso da Costa como alcaide-mor de Lagos).

Ainda outra notícia, de verbete enciclopédico: “Tantas ações de cavalaria já o faziam célebre na Europa, e estando bem firmados os créditos do infante D. Henrique pelos sucessos dos seus descobrimentos, a cidade de Lagos, contra as murmurações dos críticos, quis fazer novo armamento no ano de 1445, para destruir a ilha de Arguim, que muitos prejuízos causava, e entregou juntas 14 velas ao capitão Lançarote da Ilha (ou de Freitas), que fora criado do infante D. Henrique, no foro de seu moço da câmara, e era almoxarife de Lagos, por mercê do mesmo infante. Soeiro da Costa, apesar de já ter certa idade mas que não afrouxara como militar aguerrido, ofereceu-se generosamente, e lhe foi dada a capitania de uma delas; as quais, todas reunidas a mais 12, com que os de Lisboa e da ilha da Madeira, nesta facção mais de honra que de interesse, nada quiseram ceder aos de Lagos, saíram daquele porto a 10.8.1445. Separadas as caravelas por um forte temporal que sobreveio, cada uma com incerto rumo buscava sítio diverso ao longo da costa; mas como prudentemente, Lançarote havia determinado que, no caso de tempestade, todas demandariam a ilha das Graças para se reunirem, e ali se foram juntando umas às outras, e chegadas depois a Arguim, entraram na ilha afugentando todos os habitantes, podendo apenas lançar mão a 12 homens, que destemidos se arriscaram com as armas na mão a defender-se, combatendo com os nossos, dispostos a morrerem e não a se renderem. Nesta ação mostrou Soeiro da Costa qual seria o seu esforço em lances mais arriscados, e não contente com a vitória, com a espada tinta em sangue infiel, como quem prezava mais a religião que o valor militar, pediu que o armassem cavaleiro para de novo se alistar naquela conquista do Evangelho, e havendo recusado outras vezes esta honra na Europa e de mãos reais, agora a requeria em memoria daquele triunfo, aceitando-a da mão de Álvaro de Freitas, comendador de Aljezur, tendo a glória de o acompanhar o capitão Diniz Eanes de Gram, escudeiro do infante D. Pedro e sobrinho de Gonçalo Pacheco, que fora anteriormente criado do infante D. Henrique, e então já aposentado no oficio de tesoureiro­-mor da Casa de Ceuta, que recebeu conjuntamente a mesma dignidade de cavaleiro. Lançarote da Ilha seguiu viagem, ambicioso de maior gloria, e Soeiro da Costa retirou-se para o reino, acometendo de passagem o Cabo Branco e a ilha de Tider, recolhendo-se a Lagos vitorioso, e com muitas presas que trazia. Soeiro da Costa foi casado com Mécia Simões, filha de Gil Simões, alcaide-mor de Estoi (também no Algarve), de quem teve uma filha, que casou com o capitão Lançarote.”

Soeiro da Costa morre em 1472; já estava falecido de pouco em 14.8.1472, pois a partir de janeiro de 1471 ainda recebia, por mercê de D. Afonso V, uma tença de 5 mil reais de prata. Fora casado, como ficou dito, com Mécia Simões, ainda viva no tempo de D. João II, filha de Gil Simões que tinha a alcaidaria-mor de Estói, localidade junto a Faro.