Meu avô materno, o Velho Justo, foi quem morreu em março de 1968. Nenhum de nós, seus netos, alguma vez se atreveu a chamá-lo assim; só inventamos o nome Velho Justo depois de sua morte. Seu nome: Justo Rangel Mendes de Moraes, ou, como preferia se assinar, Justo de Moraes. O Doutor Justo.
Velho, porque nasceu em Rio Grande, lá no sul do Rio Grande do Sul, em 1883, e morreu com 85 anos em 1968. O pai era de família paulista antiga, a mãe, uma maragatona prima de Bento Gonçalves, o dirigente dos farrapos. Estudante de direito, meteu-se na revolta contra a vacina obrigatória. Quando se formou, associou-se a Inglês de Souza e a seu colega de turma, Herbert Moses, e fundaram os três um escritório de advocacia, que persistiu até a morte de Tio Luiz em 1978. Vovô defendeu os revoltosos de 1922 e os tenentes; em 1933 foi a São Paulo para conciliar o estado e o governo central. Consultado por Getúlio, indica-lhe o nome de Armando de Salles Oliveira para interventor em São Paulo, e se elege deputado corporativo, no período constitucional do primeiro governo Vargas.
Em 1964 apoia o golpe militar, mas, embora amigo pessoal de vários membros do novo regime, rompe com este em 1966, numa entrevista dada ao jornal Ultima Hora. Mesmo assim, quando morre em 1968, é homenageado pelo governo Costa e Silva.
Vovô era um libertário. Melhor, me corrijo: era um cara paradoxal. Muito autoritário no relacionamento pessoal, era publicamente um libertário extremado, ultra-radical, tipo não concordo com o que você diz, mas defendo até a morte seu direito de ter uma própria opinião.
A última vez que estive com ele foi no sábado antes de sua morte, 9 de março. Saí da praia em Ipanema, era um dia super ensolarado, comprei na banca de jornais da Praça General Osório, ali ao lado de onde havia um vendedor de coco fresco e de caldo de cana, o Estadão de sábado — chegava ali sempre ao meio-dia. Pesquei o suplemento literário e vi, logo na capa do suplemento, um artigo de Willy Lewin, “Esta prateleira do fantástico,” sobre ficção científica. Me citava um artigo recém-publicado no Quarto Caderno, e me elogiava: subi aos céus.
Era a primeira vez que alguém me citava, genial, maravilha das maravilhas!
Cheguei na casa da vovó, eram já quatro da tarde, subi correndo as escadas do fundo, da parte de trás da casa, a escada de serviço, meio pingando água e deixando rastro de areia dentro de casa, e vejo, no gabinete de vovô que ficava no andar do meio, vovô, na cadeira de balanço, e o Neco, o Prudente. Entro correndo no gabinete, vovô não se mexe — em geral reclamava, que é isso? Furacão? Mas daquela vez não reclamou. Mostro ao Neco a citação de Willy Lewin, ele brinca comigo a respeito. Aí olho para vovô. Vovô estava sempre meio ausente, calado, olhando pela porta da varanda para fora, parece que estava olhando os topos das árvores do jardim e, lá longe, a rua. Tava com os olhos fundos. Cara de passarinho triste, como dizia mamãe.
E' minha última memória dele.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
1968, VI: Marcuse; e a morte de vovô
Já escrevia no Quarto Caderno desde fins de setembro de 1967. Escrevia sobre o que me vinha à cabeça: comecei com Borges, falei de Wittgenstein, emplaquei um novo sucesso de público, no finzinho do ano, com um artigo, “Henri Lefebvre x Estruturalismo,” no qual, defendendo o estruturalismo dos ataques de Henri Lefebvre (era a tal coisa, o estruturalismo negava os humanismos...), expliquei o que era estrutura, modelo, enfim, toda a fauna teórica dos estruturalistas.
(Conto de onde tirei minhas explicações: não vieram de nenhum livro de Lévi-Strauss, vieram das aulas, na Escola Nacional de Química, sobre sistemas de controle, dadas por meu amigo muito querido, Ieuda Ciornai. Depois de ler meia-dúzia de ensaios — franceses, esclareço — muito confusos, sobre estruturalismos et caterva, onde se falava a toda hora sobre estrutura e modelo, resolvi dizer com linguagem de livro-texto de engenharia, o que era aquilo, estrutura, modelo, simulação, e para que serviam esses conceitos. Ouvi de muita gente, ah, agora entendi o que é o estruturalismo. Melhor foi a brincadeira do Ieuda para mim: como M Jourdain que não sabia que falava em prosa, você mostrou que sou estruturalista sem saber...)
Em fevereiro de 1968 começa a onda Marcuse. Tinha lido um pouco antes sobre One-Dimensional Man no Time; não me chamou muito a atenção. Em começos de março, Paulo Francis, que editava o Quarto Caderno junto com Zé Lino Grünewald, me chama e diz, vai falar com o Jorge Zahar, que publicou dois livros de Marcuse e um livro de um dissidente da Alemanha Oriental de quem você vai gostar. Aliás, você vai gostar dos dois, de Marcuse e de Robert Havemann. Pega os livros com ele e me faz artigos a respeito, rápido.
(Sobre o livro de Havemann, Dialektik ohne Dogma?, falo mais adiante.)
Dia 12 de março, uma terça-feira meio nublada, de tarde, três horas, escapo de meu trabalho na Editora Delta e vou me encontrar com o Zahar, no escritório dele, em cima da Livraria Ler, na Rua México. Ele já estava com os livros separados, Havemann e dois Marcuses, Eros e Civilização e Ideologia da Sociedade Industrial, título gênero o-filho-que-era-mãe para a tradução de One-Dimensional Man.
Bato uma hora de papo com o Zahar, tomo dois cafezinhos, e vou-me embora. Desço pela escada de fundos. Na escada, um encontro surpresa: Tio Luiz, irmão de mamãe, desce esbaforido, alucinado. Me vê, diz, vamos embora, vamos embora! O escritório de advocacia de vovô e Tio Luiz ficava no mesmo prédio, no quarto andar, de modo que não estranho encontrá-lo naquele canto. De qualquer modo não dei bola, ignorei direto o que ele dizia, e voltei para meu trabalho.
Chego em casa às 6 da tarde, pensando em tomar banho e trocar de roupa — ia ter uma vernissage badalada na Galeria Goeldi, na Praça General Osório, e queria chegar cedo, ia ser um ótimo lugar de paquera.
Bem dito, pior feito. Saio dos braços de Marcuse e Havemann e despenco no meio da linha-dura, dos coronéis de Aragarças e Jacareacanga. Chego em casa, a empregada está me esperando com um recado: vai correndo para a casa de seus avós, seu avô morreu e seus pais já estão lá. Tomo um banho urgente, troco de camisa — estava de terno e de terno fico, porque em 1968 ainda se usava terno em velórios e enterros — e vou tascado para a casa da vovó, que é como a gente, os primos do lado de mamãe, do lado Moraes, chamávamos a casa nossos meus avós comuns.
Chego pelas sete da noite, ou pouco depois. A casa, enorme, uma casa normanda no meio de um jardim que era quase um parque, na Rainha Elizabeth, entre Copacabana e Raul Pompéia, estava iluminada como se fosse para uma tremenda festança. Entro, e a primeira pessoa que vejo é Iná, Iná de Moraes, ex-mulher do Neco, do Prudente, e prima também. Contava para todo mundo, fui ao Jockey (a sede antiga no centro do Rio) e vi a porta fechada pela metade, como fazem quando morre sócio importante. Perguntei na portaria, qual é o defunto do dia? O porteiro sem jeito me diz, seu tio o Dr. Justo.
Vou até o andar do meio (a casa tinha três andares), ao quarto de vovô e vovó, onde vovô estava sendo velado. Estava amortalhado, no mesmo pijama em que havia morrido — fazia a sesta, de tarde, e morreu dormindo — em cima da cama. Mesma cara cesárea, nariz em gancho, sem sorrir, pois vovô quase nunca sorria. Pediu que o amortalhassem e que lhe dessem um caixão de terceira. A Santa Casa, de onde era alguma coisa importante, protestou, quis dar caixão de luxo; mamãe não deixou. No meio da noite foi posto no caixão de ripas, como havia determinado, e carregado pela escadaria principal da casa para a varanda grande do primeiro andar. Tinha algumas pessoas chegando para o velório; fiquei zanzando sem objetivo, falando com um e com outro, até quase cair de sono. Bibi, a governanta, mais atarantada que eu, servia empadinhas de queijo, ramequins, a toda hora. Uma da manhã, vestido como havia chegado, me estico nalguma cama e durmo. (Papai e mamãe aguentaram firme a noite toda.)
Tomo banho, troco de camisa de manhã, me desamassam um pouco o terno, e vou fazer sala aos que vão chegando para o velório. Uma porção de figurões do regime militar: Eduardo Gomes, o Brigadeiro, sua irmã D. Eliane, Juraci Magalhães, Juarez Távora, que depois fez discurso à beira do túmulo de vovô, o representante do Costa e Slva, e todos os aragarcianos, os coronéis das revoltas de Aragarças e Jacareacanga, Haroldo Veloso, Paulo Vítor, Leuzinger Marques Lima e Burnier.
Saí de Marcuse e Havemann para o meio da linha duríssima do regime. Estavam ali porque vovô havia sido seu advogado, e porque Tio Luiz, Luiz Mendes de Moraes Neto, tinha sido aragarciano também. (A gíria não é minha; eles é que se chamavam entre si aragarcianos.)
Família muito doida, a família de mamãe. De um lado Tia Maria, Maria Werneck de Castro, comunista histórica, companheira de Olga Benário, a quem ela e Nise Silveira chamavam Maria Prestes; do outro lado Tio Luiz, de extrema-direita. Até que nós, os netos, não saímos tão pirados assim...
Na hora da saida do enterro carregamos o caixão de vovô pelo jardim da casa, onde ele gostava tanto de passear. A polícia fechou a Rainha Elizabeth, de tanta gente que estava no velório. No cemitério, discursos do Ribeiro de Castro, pela OAB, e de Juarez Távora.
Voltamos, papai, mamãe e eu, exaustos para casa em Botafogo.
(Conto de onde tirei minhas explicações: não vieram de nenhum livro de Lévi-Strauss, vieram das aulas, na Escola Nacional de Química, sobre sistemas de controle, dadas por meu amigo muito querido, Ieuda Ciornai. Depois de ler meia-dúzia de ensaios — franceses, esclareço — muito confusos, sobre estruturalismos et caterva, onde se falava a toda hora sobre estrutura e modelo, resolvi dizer com linguagem de livro-texto de engenharia, o que era aquilo, estrutura, modelo, simulação, e para que serviam esses conceitos. Ouvi de muita gente, ah, agora entendi o que é o estruturalismo. Melhor foi a brincadeira do Ieuda para mim: como M Jourdain que não sabia que falava em prosa, você mostrou que sou estruturalista sem saber...)
Em fevereiro de 1968 começa a onda Marcuse. Tinha lido um pouco antes sobre One-Dimensional Man no Time; não me chamou muito a atenção. Em começos de março, Paulo Francis, que editava o Quarto Caderno junto com Zé Lino Grünewald, me chama e diz, vai falar com o Jorge Zahar, que publicou dois livros de Marcuse e um livro de um dissidente da Alemanha Oriental de quem você vai gostar. Aliás, você vai gostar dos dois, de Marcuse e de Robert Havemann. Pega os livros com ele e me faz artigos a respeito, rápido.
(Sobre o livro de Havemann, Dialektik ohne Dogma?, falo mais adiante.)
Dia 12 de março, uma terça-feira meio nublada, de tarde, três horas, escapo de meu trabalho na Editora Delta e vou me encontrar com o Zahar, no escritório dele, em cima da Livraria Ler, na Rua México. Ele já estava com os livros separados, Havemann e dois Marcuses, Eros e Civilização e Ideologia da Sociedade Industrial, título gênero o-filho-que-era-mãe para a tradução de One-Dimensional Man.
Bato uma hora de papo com o Zahar, tomo dois cafezinhos, e vou-me embora. Desço pela escada de fundos. Na escada, um encontro surpresa: Tio Luiz, irmão de mamãe, desce esbaforido, alucinado. Me vê, diz, vamos embora, vamos embora! O escritório de advocacia de vovô e Tio Luiz ficava no mesmo prédio, no quarto andar, de modo que não estranho encontrá-lo naquele canto. De qualquer modo não dei bola, ignorei direto o que ele dizia, e voltei para meu trabalho.
Chego em casa às 6 da tarde, pensando em tomar banho e trocar de roupa — ia ter uma vernissage badalada na Galeria Goeldi, na Praça General Osório, e queria chegar cedo, ia ser um ótimo lugar de paquera.
Bem dito, pior feito. Saio dos braços de Marcuse e Havemann e despenco no meio da linha-dura, dos coronéis de Aragarças e Jacareacanga. Chego em casa, a empregada está me esperando com um recado: vai correndo para a casa de seus avós, seu avô morreu e seus pais já estão lá. Tomo um banho urgente, troco de camisa — estava de terno e de terno fico, porque em 1968 ainda se usava terno em velórios e enterros — e vou tascado para a casa da vovó, que é como a gente, os primos do lado de mamãe, do lado Moraes, chamávamos a casa nossos meus avós comuns.
Chego pelas sete da noite, ou pouco depois. A casa, enorme, uma casa normanda no meio de um jardim que era quase um parque, na Rainha Elizabeth, entre Copacabana e Raul Pompéia, estava iluminada como se fosse para uma tremenda festança. Entro, e a primeira pessoa que vejo é Iná, Iná de Moraes, ex-mulher do Neco, do Prudente, e prima também. Contava para todo mundo, fui ao Jockey (a sede antiga no centro do Rio) e vi a porta fechada pela metade, como fazem quando morre sócio importante. Perguntei na portaria, qual é o defunto do dia? O porteiro sem jeito me diz, seu tio o Dr. Justo.
Vou até o andar do meio (a casa tinha três andares), ao quarto de vovô e vovó, onde vovô estava sendo velado. Estava amortalhado, no mesmo pijama em que havia morrido — fazia a sesta, de tarde, e morreu dormindo — em cima da cama. Mesma cara cesárea, nariz em gancho, sem sorrir, pois vovô quase nunca sorria. Pediu que o amortalhassem e que lhe dessem um caixão de terceira. A Santa Casa, de onde era alguma coisa importante, protestou, quis dar caixão de luxo; mamãe não deixou. No meio da noite foi posto no caixão de ripas, como havia determinado, e carregado pela escadaria principal da casa para a varanda grande do primeiro andar. Tinha algumas pessoas chegando para o velório; fiquei zanzando sem objetivo, falando com um e com outro, até quase cair de sono. Bibi, a governanta, mais atarantada que eu, servia empadinhas de queijo, ramequins, a toda hora. Uma da manhã, vestido como havia chegado, me estico nalguma cama e durmo. (Papai e mamãe aguentaram firme a noite toda.)
Tomo banho, troco de camisa de manhã, me desamassam um pouco o terno, e vou fazer sala aos que vão chegando para o velório. Uma porção de figurões do regime militar: Eduardo Gomes, o Brigadeiro, sua irmã D. Eliane, Juraci Magalhães, Juarez Távora, que depois fez discurso à beira do túmulo de vovô, o representante do Costa e Slva, e todos os aragarcianos, os coronéis das revoltas de Aragarças e Jacareacanga, Haroldo Veloso, Paulo Vítor, Leuzinger Marques Lima e Burnier.
Saí de Marcuse e Havemann para o meio da linha duríssima do regime. Estavam ali porque vovô havia sido seu advogado, e porque Tio Luiz, Luiz Mendes de Moraes Neto, tinha sido aragarciano também. (A gíria não é minha; eles é que se chamavam entre si aragarcianos.)
Família muito doida, a família de mamãe. De um lado Tia Maria, Maria Werneck de Castro, comunista histórica, companheira de Olga Benário, a quem ela e Nise Silveira chamavam Maria Prestes; do outro lado Tio Luiz, de extrema-direita. Até que nós, os netos, não saímos tão pirados assim...
Na hora da saida do enterro carregamos o caixão de vovô pelo jardim da casa, onde ele gostava tanto de passear. A polícia fechou a Rainha Elizabeth, de tanta gente que estava no velório. No cemitério, discursos do Ribeiro de Castro, pela OAB, e de Juarez Távora.
Voltamos, papai, mamãe e eu, exaustos para casa em Botafogo.
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
1968, V: Como se faz um intelectual
Comecei como ensaísta em 1967, com vinte e um anos. Graças a meu pai, crítico de teatro — intelectual, portanto. Um dia, em 1966, mostro a ele um ensaio anarquista que escrevera: discutia movimentos de massas, e argumentava que todo movimento de massas, seguindo alguma liderança, tinha necessariamente que ser alienado. Movimento de massas é sempre alienação, concluía.
Papai gostou, pegou no telefone, marcou um encontro para mim com Paulo Francis, que editava ou co-editava a Revista da Civilização, e lá fui eu, manuscrito debaixo do braço, me encontrar com o Paulo no escritório da Paz e Terra, no Edifício Avenida Central. Sento na frente do Paulo, vejo aquela cabeleira cacheada, branca e redonda à volta do rosto redondo, os óculos de hipermétrope que lhe aumentavam imenso os olhos azuis, e espero o veredito. Paulo lê tudo rápido, são dez páginas, e diz, bom, é diferente, mas está bem argumentado. Vou discutir com o pessoal; vou ver se dá para a gente publicar.
Foi recusado. Moacyr Félix, editor-geral — depois ficamos amigos — me chama alguns dias mais tarde e me diz na bucha, é politicamente inconveniente, contraria tudo o que digo. Não dá pra publicar. Mas o Paulo me chama e acrescenta, sobre literatura, você escreve? Respondo: posso escrever. Que autor? Jorge Luis Borges (foi o primeiro em quem pensei). Ótimo, conclui; me dá um texto para o Quarto Caderno. 160 linhas, 20 toques. E me deu uma porção de laudas marcadas, de datilografia, do Correio da Manhã.
Sofri horrores no fim de semana para escrever o tal artigo sobre Borges. Rascunhei, revisei, re-revisei. Foram 160 linhas exatas. Entreguei ao Paulo 2a. feira. Lê em diagonal, me diz: sai domingo. Passei a semana toda agoniado; nem saí no sábado. Dormi em casa de meus avós, em Copacabana. Vovô assinava tudo quanto é jornal do Rio naquele tempo, o Correio, o JB, Diário Carioca — Neco, meu primo, Prudente de Moraes, neto, havia sido editor do DC — e mais o Diário de Notícias, O Jornal, e, claro, o Jornal do Commercio (digo claro porque vovô, advogado do Chatô e dos Diários Associados, era presidente da empresa que publicava o JC). Acordei cedo, avancei sobre a pilha dos jornais já separados para vovô. Sob os protestos de Bibi a governanta da casa, puxei o Correio, catei lá dentro o Quarto Caderno. Nada na capa, nada na página dois e na três. Mas — coração aos pulos — vi, embaixo, na quarta página, “À procura de Borges,” e ao lado do título, meu nome.
Na praia, naquele dia, em frente à Montenegro, a Claudinha, uma garota meio besta, fala comigo, Chicão, você viu esse artigo sobre Borges no Quarto Caderno? Meio diferente o que o autor diz dele. Respondi com cara sei lá de que, vi sim, fui eu que escrevi. E olhei ela nos olhos, pra sentir a surpresa dela. Tremenda curtição, esse momento, num domingo de primavera de 1967.
Minhas lembranças estão cheias de livros. Na casa onde morei primeiro, com meus pais, na Rua Dezenove de Fevereiro, em Botafogo, a sala de visitas, na frente, com janelas debruçadas para a calçada da rua, era em parte escritório de papai e de Vuvu, meu avô paterno. E tinha duas paredes cobertas de livros. Na casa da vovó, na casa de meus avós maternos, em Copacabana, existiam quase vinte mil livros, distribuídos no escritório de vovô, na saleta do primeiro andar, um pequeno escritório onde vovô, grande advogado, recebia clientes em casa, e no hall do andar do meio. Havia até um bibliotecário, que fichava, organizava e classificava todos os livros de vovô, o “seu” Matta, alto, de bigodes finos sobre os lábios, e orelhas de abano.
Vuvu, Raul Moitinho da Costa Doria, meu avô paterno, era um comerciante, mas seu irmão caçula, Tunico, Antonio Moitinho Doria, havia sido também um grande advogado, como meu avô materno. (Não se davam, embora advogados; odiavam-se cordialmente.) E Tunico escrevia bem; escrevia muito bem mesmo. (O Velho Justo, meu avô materno, tinha ao contrário um texto burocrático e sem colorido; era grande mesmo só nas defesas orais, nos tribunais). Subo pelas linhas familiares, à procura de talento literário: meu bisavô paterno, Diocleciano da Costa Doria, ou Doloque, era médico e político. Deixou poucos textos, além de sua tese de doutorado. Seu pai, José da Costa Doria, fora professor de primeiras letras no interior da Bahia, em Itapicuru. Depois interessou-se por teatro e foi um dos fundadores do primeiro teatro de Aracaju, em 1858.
E — afinal lembro que somos todos sobrinhos distantes do Padre Vieira, de Antonio Vieira, cuja irmã Dona Inácia casou-se em 1649 com meu antepassado Fernão Vaz da Costa Doria. Bom, conto tudo isso para dizer que, mesmo assim, não acredito em hereditariedade de talento literário. Mas acho que adianta muito você crescer no meio de livros, sendo incentivado a ler, a procurar as coisas, as questões, perguntas e respostas, por você mesmo. Mamãe me mostrava, na estante de Vuvu, uma porção de livros em francês, e dizia, você tem que aprender francês para ler Zola. Coitada de mamãe, dreyfusarde feroz, ainda que tendo nascido depois da reabilitação de Dreyfus: nunca li Zola, mas li Proust.
(Papai, Gustavo Doria, foi crítico de teatro de O Globo no final dos anos 40 e durante boa parte dos 50. Amigo de Nelson Rodrigues, criticou-lhe Perdoa-me por me traíres, junto com Bárbara Heliodora e Henrique Oscar. Foi achincalhado pelo Nelson, e se desencantou com a crítica. Tinha um escritório de advocacia, marcas e patentes, com mamãe, e no escritório uma carteira com muitas das maiores marcas brasileiras, cujo registro e manutenção os dois acompanhavam. Quase faliram: foi no período da inflação do Juscelino; recusavam-se a aumentar os preços, porque seria atitude indigna para com os clientes. Uso extremado, absurdo — evito outros adjetivos — do noblesse oblige em que nos banhávamos todos. Morávamos numa casa de vila em Botafogo, que eles transformaram, quase, num atelier de artista. Como papai era crítico teatral muito respeitado, costumava receber em casa muita gente de companhias estrangeiras, que iam curtir o cocktail de camarão que mamãe fazia, em sauce rosée, e beber Veuve Clicquot, ainda de preço razoável naquele tempo. E, assim, conheci em minha casa, em vila de Botafogo, gente como Jean-Louis Barraut e Madeleine Renault, além de boa parte do teatro brasileiro. Diziam todos sobre a casa: parece Montmartre, e papai se deliciava.)
Adianta muito, adianta imenso conviver com gente que pensa e escreve. Um dia chego em Copacabana na casa de meus avós maternos, em 65 ou 66, com um livro de Borges na mão. Neco, meu primo, Prudente de Moraes, neto, já disse, está na varanda grande do primeiro andar; me vê, me chama. Pergunta, que livro é esse, Francisco Antonio? Mostro-lhe: Ficciones, de Borges. Pega, examina, fala: fomos muito amigos, nos correspondemos muito nos anos 20. Enquanto a gente fazia o movimento pela arte moderna aqui, eles faziam movimento semelhante na Argentina.
Abre o livro, lê um pouco, sinto o Neco melancólico, fecha o livro e me devolve.
Aqui em casa são também 20 mil volumes. Mas lembro num flash o que um historiador disse de outro parente, um anquilosado marquês florentino: cervello molto bizzarro, aveva stupenda librería, che lui vivente andò dispersa.
Vou ficar assim?
Papai gostou, pegou no telefone, marcou um encontro para mim com Paulo Francis, que editava ou co-editava a Revista da Civilização, e lá fui eu, manuscrito debaixo do braço, me encontrar com o Paulo no escritório da Paz e Terra, no Edifício Avenida Central. Sento na frente do Paulo, vejo aquela cabeleira cacheada, branca e redonda à volta do rosto redondo, os óculos de hipermétrope que lhe aumentavam imenso os olhos azuis, e espero o veredito. Paulo lê tudo rápido, são dez páginas, e diz, bom, é diferente, mas está bem argumentado. Vou discutir com o pessoal; vou ver se dá para a gente publicar.
Foi recusado. Moacyr Félix, editor-geral — depois ficamos amigos — me chama alguns dias mais tarde e me diz na bucha, é politicamente inconveniente, contraria tudo o que digo. Não dá pra publicar. Mas o Paulo me chama e acrescenta, sobre literatura, você escreve? Respondo: posso escrever. Que autor? Jorge Luis Borges (foi o primeiro em quem pensei). Ótimo, conclui; me dá um texto para o Quarto Caderno. 160 linhas, 20 toques. E me deu uma porção de laudas marcadas, de datilografia, do Correio da Manhã.
Sofri horrores no fim de semana para escrever o tal artigo sobre Borges. Rascunhei, revisei, re-revisei. Foram 160 linhas exatas. Entreguei ao Paulo 2a. feira. Lê em diagonal, me diz: sai domingo. Passei a semana toda agoniado; nem saí no sábado. Dormi em casa de meus avós, em Copacabana. Vovô assinava tudo quanto é jornal do Rio naquele tempo, o Correio, o JB, Diário Carioca — Neco, meu primo, Prudente de Moraes, neto, havia sido editor do DC — e mais o Diário de Notícias, O Jornal, e, claro, o Jornal do Commercio (digo claro porque vovô, advogado do Chatô e dos Diários Associados, era presidente da empresa que publicava o JC). Acordei cedo, avancei sobre a pilha dos jornais já separados para vovô. Sob os protestos de Bibi a governanta da casa, puxei o Correio, catei lá dentro o Quarto Caderno. Nada na capa, nada na página dois e na três. Mas — coração aos pulos — vi, embaixo, na quarta página, “À procura de Borges,” e ao lado do título, meu nome.
Na praia, naquele dia, em frente à Montenegro, a Claudinha, uma garota meio besta, fala comigo, Chicão, você viu esse artigo sobre Borges no Quarto Caderno? Meio diferente o que o autor diz dele. Respondi com cara sei lá de que, vi sim, fui eu que escrevi. E olhei ela nos olhos, pra sentir a surpresa dela. Tremenda curtição, esse momento, num domingo de primavera de 1967.
Minhas lembranças estão cheias de livros. Na casa onde morei primeiro, com meus pais, na Rua Dezenove de Fevereiro, em Botafogo, a sala de visitas, na frente, com janelas debruçadas para a calçada da rua, era em parte escritório de papai e de Vuvu, meu avô paterno. E tinha duas paredes cobertas de livros. Na casa da vovó, na casa de meus avós maternos, em Copacabana, existiam quase vinte mil livros, distribuídos no escritório de vovô, na saleta do primeiro andar, um pequeno escritório onde vovô, grande advogado, recebia clientes em casa, e no hall do andar do meio. Havia até um bibliotecário, que fichava, organizava e classificava todos os livros de vovô, o “seu” Matta, alto, de bigodes finos sobre os lábios, e orelhas de abano.
Vuvu, Raul Moitinho da Costa Doria, meu avô paterno, era um comerciante, mas seu irmão caçula, Tunico, Antonio Moitinho Doria, havia sido também um grande advogado, como meu avô materno. (Não se davam, embora advogados; odiavam-se cordialmente.) E Tunico escrevia bem; escrevia muito bem mesmo. (O Velho Justo, meu avô materno, tinha ao contrário um texto burocrático e sem colorido; era grande mesmo só nas defesas orais, nos tribunais). Subo pelas linhas familiares, à procura de talento literário: meu bisavô paterno, Diocleciano da Costa Doria, ou Doloque, era médico e político. Deixou poucos textos, além de sua tese de doutorado. Seu pai, José da Costa Doria, fora professor de primeiras letras no interior da Bahia, em Itapicuru. Depois interessou-se por teatro e foi um dos fundadores do primeiro teatro de Aracaju, em 1858.
E — afinal lembro que somos todos sobrinhos distantes do Padre Vieira, de Antonio Vieira, cuja irmã Dona Inácia casou-se em 1649 com meu antepassado Fernão Vaz da Costa Doria. Bom, conto tudo isso para dizer que, mesmo assim, não acredito em hereditariedade de talento literário. Mas acho que adianta muito você crescer no meio de livros, sendo incentivado a ler, a procurar as coisas, as questões, perguntas e respostas, por você mesmo. Mamãe me mostrava, na estante de Vuvu, uma porção de livros em francês, e dizia, você tem que aprender francês para ler Zola. Coitada de mamãe, dreyfusarde feroz, ainda que tendo nascido depois da reabilitação de Dreyfus: nunca li Zola, mas li Proust.
(Papai, Gustavo Doria, foi crítico de teatro de O Globo no final dos anos 40 e durante boa parte dos 50. Amigo de Nelson Rodrigues, criticou-lhe Perdoa-me por me traíres, junto com Bárbara Heliodora e Henrique Oscar. Foi achincalhado pelo Nelson, e se desencantou com a crítica. Tinha um escritório de advocacia, marcas e patentes, com mamãe, e no escritório uma carteira com muitas das maiores marcas brasileiras, cujo registro e manutenção os dois acompanhavam. Quase faliram: foi no período da inflação do Juscelino; recusavam-se a aumentar os preços, porque seria atitude indigna para com os clientes. Uso extremado, absurdo — evito outros adjetivos — do noblesse oblige em que nos banhávamos todos. Morávamos numa casa de vila em Botafogo, que eles transformaram, quase, num atelier de artista. Como papai era crítico teatral muito respeitado, costumava receber em casa muita gente de companhias estrangeiras, que iam curtir o cocktail de camarão que mamãe fazia, em sauce rosée, e beber Veuve Clicquot, ainda de preço razoável naquele tempo. E, assim, conheci em minha casa, em vila de Botafogo, gente como Jean-Louis Barraut e Madeleine Renault, além de boa parte do teatro brasileiro. Diziam todos sobre a casa: parece Montmartre, e papai se deliciava.)
Adianta muito, adianta imenso conviver com gente que pensa e escreve. Um dia chego em Copacabana na casa de meus avós maternos, em 65 ou 66, com um livro de Borges na mão. Neco, meu primo, Prudente de Moraes, neto, já disse, está na varanda grande do primeiro andar; me vê, me chama. Pergunta, que livro é esse, Francisco Antonio? Mostro-lhe: Ficciones, de Borges. Pega, examina, fala: fomos muito amigos, nos correspondemos muito nos anos 20. Enquanto a gente fazia o movimento pela arte moderna aqui, eles faziam movimento semelhante na Argentina.
Abre o livro, lê um pouco, sinto o Neco melancólico, fecha o livro e me devolve.
Aqui em casa são também 20 mil volumes. Mas lembro num flash o que um historiador disse de outro parente, um anquilosado marquês florentino: cervello molto bizzarro, aveva stupenda librería, che lui vivente andò dispersa.
Vou ficar assim?
1968, IV: Quem é Wurlitzer?

— A onda agora é conhecer Wurlitzer!
Era fevereiro. Estava em casa de João Rui Medeiros, dono da José Álvaro Editor, um apartamento em Copacabana, na Praça Eugênio Jardim. Muita bebida, boas comidas, discussão furibunda entre estruturalistas e não-estruturalistas. Maior mistura de gentes: políticos, tipo Ciro Kurtz, que era deputado; jornalistas, como Fausto Wolff. Muita gente, uma discussão que já estava chegando no ponto da briga física. Até que alguém berra:
- A onda agora é conhecer Wurlitzer!
Wurlitzer, a onda intelectual de 1968? Porque havia isso, uma sucessão de ondas intelectuais, desde os anos 50 no Rio. Primeiro o existencialismo, e logo em seguida Sartre. Aí chegou, comecinhos dos 60, o marxismo através de Sartre, o marxismo da Critique de la Raison Dialectique. Depois, entrados os 60, uma guinada: a semiótica de Max Bense, que vai inspirar a Karlheinz Bergmiller a criação da ESDI, a Escola Superior de Desenho Industrial, na Lapa.
Aí, devagarinho, vai se aproximando a onda estruturalista, Lévi-Strauss (que, no início, pouca gente havia lido), a vertente psicanalítica de Jacques Lacan, o côté marxista de Althusser, Balibar, Badiou. 1967 foi o ano do estruturalismo: Jorge Zahar publica uma coletânea sobre o estruturalismo onde aparece um texto violentíssimo de Escobar, defendendo o marxismo à maneira de Althusser. Deste artigo de Escobar surge uma briga com Carpeaux, que se prolonga pelo ano todo.
E — no começo de 1968, um nome novo, anunciado ali: Wurlitzer. Na festa em casa de João Rui, a coisa pega fogo de novo, uns poucos defendendo Wurlitzer, dizendo maravilhas de Wurlitzer, os outros, a maioria, irritados, meio com cara de panaca, sem saber quem era, o que dizia Wurlitzer.
Era alemão? Perguntavam os que não sabiam de Wurlitzer — afinal, o alemão era uma barreira impossível de se ultrapassar; lia-se Sartre porque todo mundo, tout le monde et son père lia francês. Mas Heidegger... quem chegava lá? Só Carpeaux, Anatol Rosenfeld, Willy Lewin. Os Grandes Eruditos. E mais ninguém. Não, não, Wurlitzer era Uurlítzer, americano. A festa terminou sem que os ignorantes-de-quem-era-Wurlitzer soubessem muito mais sobre aquela nova onda.
Se bem me lembro, essa discussão sobre Wurlitzer virou até nota em coluna social, nos dias seguintes à festa.
Passa um tempo. Estou num barzinho na Sá Ferreira, perto da praia. Uma vitrola daquelas grandonas, jukebox, cheias de discos, rebrilhantes de luzes de tudo quanto é tipo, toca música sem parar. A toda hora vai alguém lá, mete umas fichas, e renova o estoque de música. Um amigo meu se levanta da mesa, me puxa pelo braço, e diz, vem ver a Wurlitzer.
Era A Wurlitzer? Era. Rebrilhando de luzes e cromados, bem no alto, a vitrola mostrava a marca: Wurlitzer.
Era esta A Wurlitzer da discussão em casa de João Rui, da nova onda de 1968...
1968, III: De Mao a Piao

Cherchez la femme. Começo com um lugar comum. Naquele comecinho de 68, janeiro, estava saindo com uma menina aluna de sociologia da PUC-RJ. Estava ficando razoavelmente conhecido, porque escrevia regularmente no Quarto Caderno do Correio da Manhã, um caderno de comentários políticos, iniciado em 1966, e que logo evoluiu no melhor suplemento cultural do Brasil — tipo estrela cadente; brilhou rápido em 67 e 68, e foi morto pelo Ato 5. Depois conto como fui parar lá.
A moça me convidou para ajudar num “grupo de estudos” da turma dela. Aspas necessárias: o nome que ela usava era grupo de estudos, e a maior parte dos que estavam lá eram seus colegas de PUC. Com duas ou três exceções, uma delas eu, e a outra um carinha bem diferente daquele povinho dourado zona sul do Rio. Logo logo descobri o que era o grupinho de estudos.
O ponto de reunião era uma casa perto da PUC, na Marquês de S. Vicente, na Gávea. Cercada de árvores e jardins, e tendo no fundo uma piscina imensa, bem azulzinha de azul piscina, e, do lado, um puxado, tipo bar da piscina, compridão, cheio de cadeiras e mesas. Era onde a gente se reunia. No fundo do jardim, muitas árvores, quase em continuidade com o parque da PUC.
Não estou fazendo caricatura: era assim mesmo.
Cheguei lá com a moça, já havia gente reunida. O tal rapaz que não era dos tipos dourados das praias do Rio me entrega dois textos mimeografados, e diz, vamos estudar isso e vamos discutir. Hoje em dia sumiram os mimeógrafos a álcool e a tinta; os a álcool imprimiam coisas em roxo, roxo-azulado, e deixavam nas coisas impressas um cheirinho gostoso de álcool de cana; os a tinta cheiravam mal, e imprimiam coisas numa tinta preta pegajosa, que sempre sujava a mão do operador do mimeógrafo e de quem lia a coisa impressa. (Os primeiros Carlos Zéfiros e assemelhados eram impressos em mimeógrafos a tinta, registro.) Peguei os textos: na folha de rosto do primeiro, Mao Tsé-tung, Sobre a Contradição. Na do segundo, Mao Tsé-tung, Sobre a prática.
Nos anos 50 circulou, com muita fanfarra e elogios, um texto de Stálin sobre linguística. Era coisa profunda, bem argumentada, e exibida sempre para mostrar as habilidades intelectuais do Uncle Joe, em contraste aos talentos muito restritos, com certeza, de Eisenhower. Era um texto interessante, mas com certeza não foi escrito por Stálin: foi escrito por um grande linguista soviético, não lembro agora quem, e assinado pelo Joe himself. Mas os textos de Mao com certeza são dele, e são muito, muito ruins. São um bestialógico sem pé nem cabeça, coleção de trivialidades e lugares comuns sobre contradições na natureza. Pensa bem: contradição na natureza é um conceito vago — os sexos são contraditórios? O azul contradiz o vermelho? Ou será oposição ao amarelo? Em cima de coisas vagas assim, você monta qualqer tipo de teorização com esqueminhas dialéticos.
O outro texto, Sobre a prática, cheirava a auto-ajuda revolucionária. Lixo, também.
No fundo, epifenômenos da famigerada dialética da natureza de Engels, teorização que não tem nada a ver com o que Marx pensou e estudou. Marx é genial; Engels não lhe chega aos pés.
No domingo seguinte publiquei, no Quarto Caderno, um artigo cujo título era: “Sobre os maus textos sagrados.” Trocadilho que irritou muita gente, mas ao qual não resisti. Comecei com uma frase assim: “Sobre a contradição” só não cai em pedaços porque os grampos da lombada são muito firmes.” E fiz uma análise com certeza maldosamente destrutiva daqueles dois textos de Mao. Usei, na minha crítica, muita coisa que sabia, e também idéias tomadas num livro que havia lido uns tempos antes, The Tyranny of Concepts, de Gordon Leff (Merlin, Londres, 1961). E fui, lampeiro e feliz, na terça-feira, para a reunião do grupo de estudos.
Todo mundo tinha lido o que havia escrito. A raiva, no entanto, estava concentrada no orientador do grupo — afinal, melei o jogo dele. Acabei sendo convidado a sair; o rapaz disse de mim que eu tinha desvios ideológicos anárquicos... Saí do grupo e deixei de ver a minha candidata a socióloga.
Não é uma caricatura; é o que aconteceu. Um grupo de estudos de textos de esquerda, bem de esquerda, que se reunia junto à piscina de uma casa muito bonita na Marquês de S. Vicente. Radical chic ao estilo americano? Uma célula de grupelhos ultra num ambiente de alta burguesia? Pode ser. Conto só como foi.
E' o segundo episódio que marcou o começo de 1968, para mim.
Depois me redimi os com dialetas, duas vezes. Em março ou abril, escrevi artigos sobre um livro que Jorge Zahar havia publicado, Dialektik ohne Dogma?, Dialética sem Dogma, na edição brasileira. Trata-se de um texto sobre filosofia da ciência, teoria dos fundamentos da química e da mecânica quântica (costumo dizer que quem fala física quântica não conhece mecânica quântica). Lembro que até consultei a Mécanique Quantique, de Landau e Lifschitz, para fazer minha resenha. Foi muito comentada; o livro de Havemann era uma tentativa de sair do esquematismo dialético barato, e tinha idéias bastante interessantes — e com certeza ia botar Engels se ralando de inveja.
E — como é notório, trabalho há mais de vinte anos com Newton da Costa, pai das lógicas paraconsistentes. Inventadas, entre outras coisas, como uma tentativa de formalizar a dialética de Hegel. Temos junto uns trinta artigos publicados, a maior parte sobre lógica e fundamentos da ciência.
Na ilustração, a capa do livro de Gordon Leff. Disseram que tinha inventado o autor para justificar o que chamaram de “minhas imbecilidades.” Pois está aí o livro. Não foi outro Wurlitzer.
E sobre quem foi Wurlitzer, deixo para o próximo post.
domingo, 27 de janeiro de 2008
1968, II
O ano começou em andante moderato. Lembro de dois episódios de janeiro. Conto agora o primeiro desses episódios. Logo ao início do ano, Eduardo Portella me convida para uma reunião no Colégio do Brasil, para discutirmos dois números especiais de Tempo Brasileiro, uma das duas revistas de cultura que circulavam no Rio — a outra era Cadernos Brasileiros.
O Colégio do Brasil ficava ali no Largo do Machado, numa casa que abrigava também a editora de Eduardo; no dia a dia, quem cuidava das coisas era seu irmão Franco. Era uma casa dos anos 20 do século passado, com um pórtico, um pequeno hall de entrada, e, à direita, um auditório para umas cinquenta pessoas. Foi num sábado de tarde: cheguei, me apresentei e fui apresentado aos outros colaboradores dos números especiais da revista, seu editor, Chaim Samuel Katz, o Jaime; Sérgio Augusto, que já conhecia como crítico de cinema; Eduardo; Franco; algumas outras pessoas.
Tempo Brasileiro havia editado em 1967 um número sobre estruturalismo — a onda do estruturalismo viera em 1966 da França, e provocou uma brigalhada daquelas na intelligentzia (existia sim, a intelligentzia) do Rio e de São Paulo. Mas foi uma briga interna entre correntes marxistas: havia os que achavam que marxismo e estruturalismo eram compatíveis, e que o estruturalismo aprimorava o marxismo (essa briga vinha da França: um filósofo que depois se suicidou, Lucien Sebag, havia publicado em 1964 Marxisme et Structuralisme). Outros diziam que o estruturalismo tirava o conteúdo humanista do marxismo. E vinha blá-blá-blá que não acabava mais, de um lado e do outro.
Havia também os estruturalistas indiferentes ao marxismo, como Abraham Moles, que tentava formular uma teoria geral das sociedades com base na (assim chamada) teoria da comunicação de Shannon, hoje melhor conhecida como teoria da informação. Ou seja, tiroteio na zona.
Naquele sábado de janeiro de 1968, estava entrando nessa briga toda.
Combinamos ali duas coisas: a revista sobre estruturalismo, um best-seller, ia ser reeditada com um apêndice, para o qual eu escreveria um artigo. Escrevi: sobre a estrutura dos romances de ficção científica. (Disse que reproduziam um arquétipo, o mito salvacionista, o mito da criança divina, estudado por Jung. E misturei alegremente Jung com Lévi-Strauss, irritando assim todas as ortodoxias, da psicanálise anti-Jung e pró-Lacan à turma do marxismo mais tradicional.) Combinamos também fazer uma revista sobre comunicação. Ao fim, um vocabulário de comunicação e cultura de massa. Deste vocabulário nascerá, em 1971, meu segundo livro, com o Chaim, o Jaime, e Lula Costa Lima, o Dicionário Crítico de Comunicação.
Um comentário à parte: o Dicionário, escrito em 70 e 71, ia sair por uma terceira editora. Estava com os originais debaixo do braço, na cidade, no centro do Rio, quando encontro Fausto Cunha — acho que foi descendo do ônibus, acho que quase dei um encontrão no Fausto. Foi ali em frente ao Bob's perto da Maison de France. Vamos tomar um milk-shake, Fausto me pergunta sobre aqueles originais, digo o que é, e ele me faz ir direto à Paz e Terra, que naquele tempo ficava no Edifício Avenida Central, onde Moacyr Félix, diretor da editora, e o Fausto, me convencem a negociar o livro com a Paz e Terra. Saiu com o selo do Instituto Nacional do Livro, isso um livro cheio de verbetes marxistas, no tempo do general Médici (nada a ver com a família florentina histórica, deixo claro). Demos em maio de 1971 uma festa de arromba, subsidiada por uma agência de publicidade, para comemorar o lançamento do livro.
Volto a 1968.
Um mês depois de nossa reunião, o CCC, Comando de Caça aos Comunistas, joga uma bomba no Colégio do Brasil. Alguém comentou comigo então: ser intelectual é um perigo nessa terra. Bom, continua sendo.
O Colégio do Brasil ficava ali no Largo do Machado, numa casa que abrigava também a editora de Eduardo; no dia a dia, quem cuidava das coisas era seu irmão Franco. Era uma casa dos anos 20 do século passado, com um pórtico, um pequeno hall de entrada, e, à direita, um auditório para umas cinquenta pessoas. Foi num sábado de tarde: cheguei, me apresentei e fui apresentado aos outros colaboradores dos números especiais da revista, seu editor, Chaim Samuel Katz, o Jaime; Sérgio Augusto, que já conhecia como crítico de cinema; Eduardo; Franco; algumas outras pessoas.
Tempo Brasileiro havia editado em 1967 um número sobre estruturalismo — a onda do estruturalismo viera em 1966 da França, e provocou uma brigalhada daquelas na intelligentzia (existia sim, a intelligentzia) do Rio e de São Paulo. Mas foi uma briga interna entre correntes marxistas: havia os que achavam que marxismo e estruturalismo eram compatíveis, e que o estruturalismo aprimorava o marxismo (essa briga vinha da França: um filósofo que depois se suicidou, Lucien Sebag, havia publicado em 1964 Marxisme et Structuralisme). Outros diziam que o estruturalismo tirava o conteúdo humanista do marxismo. E vinha blá-blá-blá que não acabava mais, de um lado e do outro.
Havia também os estruturalistas indiferentes ao marxismo, como Abraham Moles, que tentava formular uma teoria geral das sociedades com base na (assim chamada) teoria da comunicação de Shannon, hoje melhor conhecida como teoria da informação. Ou seja, tiroteio na zona.
Naquele sábado de janeiro de 1968, estava entrando nessa briga toda.
Combinamos ali duas coisas: a revista sobre estruturalismo, um best-seller, ia ser reeditada com um apêndice, para o qual eu escreveria um artigo. Escrevi: sobre a estrutura dos romances de ficção científica. (Disse que reproduziam um arquétipo, o mito salvacionista, o mito da criança divina, estudado por Jung. E misturei alegremente Jung com Lévi-Strauss, irritando assim todas as ortodoxias, da psicanálise anti-Jung e pró-Lacan à turma do marxismo mais tradicional.) Combinamos também fazer uma revista sobre comunicação. Ao fim, um vocabulário de comunicação e cultura de massa. Deste vocabulário nascerá, em 1971, meu segundo livro, com o Chaim, o Jaime, e Lula Costa Lima, o Dicionário Crítico de Comunicação.
Um comentário à parte: o Dicionário, escrito em 70 e 71, ia sair por uma terceira editora. Estava com os originais debaixo do braço, na cidade, no centro do Rio, quando encontro Fausto Cunha — acho que foi descendo do ônibus, acho que quase dei um encontrão no Fausto. Foi ali em frente ao Bob's perto da Maison de France. Vamos tomar um milk-shake, Fausto me pergunta sobre aqueles originais, digo o que é, e ele me faz ir direto à Paz e Terra, que naquele tempo ficava no Edifício Avenida Central, onde Moacyr Félix, diretor da editora, e o Fausto, me convencem a negociar o livro com a Paz e Terra. Saiu com o selo do Instituto Nacional do Livro, isso um livro cheio de verbetes marxistas, no tempo do general Médici (nada a ver com a família florentina histórica, deixo claro). Demos em maio de 1971 uma festa de arromba, subsidiada por uma agência de publicidade, para comemorar o lançamento do livro.
Volto a 1968.
Um mês depois de nossa reunião, o CCC, Comando de Caça aos Comunistas, joga uma bomba no Colégio do Brasil. Alguém comentou comigo então: ser intelectual é um perigo nessa terra. Bom, continua sendo.
1968, I
Pedro, meu filho, me perguntou hoje se, quando 68 terminou, a gente sabia que havia sido um ano especial. Com certeza: todo mundo terminou o ano desencantado, desesperançado — os milicos haviam baixado o Ato 5 em 13 de dezembro, uma sexta-feira. Estávamos de crista baixa, mas sabíamos que o ano tinha sido um ano diferentão. Cheio de novidades que, a gente pensava, tinham sido fogo de palha: afinal de Gaulle terminava 68 todo poderoso na França, e os ditadores de plantão no Brasil tinham conseguido reimplantar a ditadura, com o golpe contra o Costa e Silva porque o Ato 5 foi, sim, um golpe contra o Costa.
Vou contar tudo, aos poucos. Festas, que foram muitas, como o Baile da Baronesa, que o Jaguar organizou, ou a despedida de Marcito, em casa de Heloisa Buarque de Hollanda, ou a festa que o Smil deu em minha homenagem em novembro, na casa dele — teve até strip tease de uma atriz muito manjada. Vou contar sobre a passeata dos 100 mil. Vou contar sobre o clima de cidade ocupada que vivemos, no Rio, em março e abril, com caminhões da PM passando a toda, sirene aberta, pelas ruas da cidade, apontando os fuzis para as pessoas na rua. Vou contar sobre aqueles com quem convivi: Paulo Francis, que me levou para o Correio da Manhã, o mais importante jornal do Rio, na época, em 1967, e me botou na equipe permanente do “Quarto Caderno,” o suplemento intelectual — tinha disso — mais lido do Brasil; Otto Maria Carpeaux, Antonio Houaiss, todos da redação da Grande Enciclopédia Delta-Larousse; amigos que fiz naquele tempo, como Chaim Samuel Katz e Luiz Costa Lima.
Vou contar tudo isso.
Mas começo com a noite do Ato 5.
Cheguei do trabalho, trabalhava na Editora Delta, era assessor econômico para projetos industriais, jantei rápido. O clima no centro do Rio estava super-pesado; rumores que tinha gente sendo presa, deputados dizendo que o “governo ia reagir” contra a derrota que sofrera no pedido de licença para processar o Marcito. Papai tinha comprado uma tv pequena (era 68: portanto, tv em preto-e-branco) onde assistíamos ao jornal. Bate 8 e meia. Entra no ar o Gaminha, ministro da justiça, com as desculpas esfarrapadas habituais do governo, e aí aparece o Alberto Cury, locutor oficial, vomitando sobre nós o horror ditatorial do Ato 5.
Na hora me senti meio anestesiado. Pensei, “vem de novo a mesma coisa de 64, 65,” dos Atos 1 e 2. Não pressenti que ia ser pior.
Estava anestesiado porque tinha um compromisso, um programinha ótimo, para a noite. Um amigo, o Nando, me havia convidado para sair com duas colegas dele, psicólogas e irmãs; estava na verdade com a cabeça no programa que íamos fazer. Com ou sem Ato 5, fomos ao Bilboquet, uma boate que ficava na N. S. de Copacabana quase esquina de Princesa Isabel. Cheia de luz negra, efeitos psicodélicos, coisa que era novidade nos anos 60. Bebi, dancei, combinei novas dates com uma das moças, e adormeci de madrugada com o Ato 5 nas costas e na memória, mas sem perceber a extensão da coisa, do desastre.
Só despertei quando ia para a praia no sábado, 11 horas, e vi as manchetes do Jornal do Brasil: “Ontem foi o dia dos tolos.” A previsão do tempo: “tempo negro, temperatura sufocante; o ar está irrespirável. Mínima: 5 graus em Brasília...”
Vou contar tudo, aos poucos. Festas, que foram muitas, como o Baile da Baronesa, que o Jaguar organizou, ou a despedida de Marcito, em casa de Heloisa Buarque de Hollanda, ou a festa que o Smil deu em minha homenagem em novembro, na casa dele — teve até strip tease de uma atriz muito manjada. Vou contar sobre a passeata dos 100 mil. Vou contar sobre o clima de cidade ocupada que vivemos, no Rio, em março e abril, com caminhões da PM passando a toda, sirene aberta, pelas ruas da cidade, apontando os fuzis para as pessoas na rua. Vou contar sobre aqueles com quem convivi: Paulo Francis, que me levou para o Correio da Manhã, o mais importante jornal do Rio, na época, em 1967, e me botou na equipe permanente do “Quarto Caderno,” o suplemento intelectual — tinha disso — mais lido do Brasil; Otto Maria Carpeaux, Antonio Houaiss, todos da redação da Grande Enciclopédia Delta-Larousse; amigos que fiz naquele tempo, como Chaim Samuel Katz e Luiz Costa Lima.
Vou contar tudo isso.
Mas começo com a noite do Ato 5.
Cheguei do trabalho, trabalhava na Editora Delta, era assessor econômico para projetos industriais, jantei rápido. O clima no centro do Rio estava super-pesado; rumores que tinha gente sendo presa, deputados dizendo que o “governo ia reagir” contra a derrota que sofrera no pedido de licença para processar o Marcito. Papai tinha comprado uma tv pequena (era 68: portanto, tv em preto-e-branco) onde assistíamos ao jornal. Bate 8 e meia. Entra no ar o Gaminha, ministro da justiça, com as desculpas esfarrapadas habituais do governo, e aí aparece o Alberto Cury, locutor oficial, vomitando sobre nós o horror ditatorial do Ato 5.
Na hora me senti meio anestesiado. Pensei, “vem de novo a mesma coisa de 64, 65,” dos Atos 1 e 2. Não pressenti que ia ser pior.
Estava anestesiado porque tinha um compromisso, um programinha ótimo, para a noite. Um amigo, o Nando, me havia convidado para sair com duas colegas dele, psicólogas e irmãs; estava na verdade com a cabeça no programa que íamos fazer. Com ou sem Ato 5, fomos ao Bilboquet, uma boate que ficava na N. S. de Copacabana quase esquina de Princesa Isabel. Cheia de luz negra, efeitos psicodélicos, coisa que era novidade nos anos 60. Bebi, dancei, combinei novas dates com uma das moças, e adormeci de madrugada com o Ato 5 nas costas e na memória, mas sem perceber a extensão da coisa, do desastre.
Só despertei quando ia para a praia no sábado, 11 horas, e vi as manchetes do Jornal do Brasil: “Ontem foi o dia dos tolos.” A previsão do tempo: “tempo negro, temperatura sufocante; o ar está irrespirável. Mínima: 5 graus em Brasília...”
Assinar:
Postagens (Atom)