sexta-feira, 16 de maio de 2008

Laura minha neta


Neta minha e de Margô. Aqui em casa, no sábado 10 de maio.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

1968, XVI - Revolução nos costumes, revolução sexual


Começo em Balzac:

Montriveau pâlit, et tomba pour la première fois de sa vie aux genoux d’une femme. Il baisa le bas de la robe de la duchesse, les pieds, les genoux; mais, pour l’honneur du faubourg Saint-Germain, il est nécessaire de ne pas révéler les mystères de ses boudoirs, où l’on voulait tout de l’amour, moins ce qui pouvait attester l’amour.

A cena é famosa e é um lugar-comum. Traduzo: Montriveau empalidece, e cai pela primeira vez em sua vida diante dos joelhos de uma mulher. Beijou a ponta do vestido da duquesa, os pés, seus joelhos; mas, guardando a honra do faubourg Saint-Germain, é necessário não revelar os mistérios de suas alcovas, onde tudo se desejava do amor, exceto o que podia atestar este amor.

Dito às claras: o general de Montriveau esmera-se em carícias orais íntimas na duquesa de Langeais. A cena, já disse, é famosa, e se deixa compreender muito bem, embora Balzac seja discreto a respeito, escancaradamente discreto.

— Chère Antoinette, s’écria Montriveau dans le délire où le plongea l’entier abandon de la duchesse… Querida Antoinette, disse Montriveau, no delírio em que foi jogado pelo total abandono da duquesa… Precisa dizer mais alguma coisa? Não.

Logo em seguida, um companheiro de Montriveau, o marquês de Ronquerolles, explicita para o general seu amigo as regras do jogo amoroso na haute gomme parisiense: Apprends d’abord que les femmes de notre faubourg aiment, comme toutes les autres, à se baigner dans l’amour; mais elles veulent posséder sans être possédées. Elles ont transigé avec la nature. La jurisprudence de la paroisse leur a presque tout permis, moins le péché positif. Aprenda, primeiro, que as mulheres de nosso grupo gostam, como todas as outras, de banharem-se no amor; mas elas desejam possuir sem serem possuídas. Transigiram com a natureza. A jurisprudência da paróquia permite-lhes quase tudo, menos o pecado positivo.

Ou, dito como era quase um provérbio anunciado pela namorada, lema de conduta, nos namoros no Brasil, anos 50 do século vinte, topo tudo, ou topo quase tudo, menos o essencial; menos na frente.

Balzac nos ensina mais: deixamos para trás La Duchesse de Langeais, de onde pesquei tais passagens com um código de conduta sexual bastante explícito, e passemos à novela seguinte da trilogia Histoire des Treize, que é La Fille aux Yeux d’Or, “A jovem dos olhos dourados.” No clímax amoroso, quando Henri de Marsay se encontra, enfim, com a moça dos olhos cor de ouro, Paquita Valdez, esta é descrita como, Mais, chose étrange! si la Fille aux yeux d’or était vierge, elle n’était pas certes innocente. Mas, coisa estranha, se a jovem dos olhos dourados era virgem, não era no entanto inocente. A virgindade de Paquita é assim descrita um pouco adiante: l’innocence purement physique de Paquita, a inocência puramente física de Paquita…

Balzac deixa claro, na cena do encontro amoroso entre de Marsay e Paquita, que estes consumam — de algum modo — o ato amoroso, embora seja elíptico a respeito, e que Paquita continua, tecnicamente, virgem após a noite de amor do casal, quando se refere à l’innocence purement physique de Paquita.

Balzac faz alusões, não diz muita coisa. Fui então a um clássico mais clássico ainda, um que trata só do erotismo: Brantôme. Fui ao Vie des Femmes Galantes, onde, no século XVI, Brantôme nos fala das jovens que sacrificam no altar da arrière-Vénus, da Vênus gozada por detrás, para preservarem le pucelage, a virgindade. Nunca ninguém fez um estudo sobre a sexualidade da classe média urbana no Brasil, no pós-guerra, isto é, depois de 1945, mas, se tomamos como indicativo as historinhas pornôs de Carlos Zéfiro, a prática do arrière-Vénus era comum, na vida amorosa antes do casamento, justamente para que a virgindade fosse preservada. Seguindo-se o exemplo de Paquita Valdés, em La Fille aux Yeux d’Or.

Uma vez jantamos, meados da década de 70, minha mulher e eu, na casa de amigos com Silviano Santiago. Não lembro a razão da conversa que se seguiu, mas alguém começou a discutir a suposta revolução sexual dos anos 60. Silviano deu uma explicação que nos pareceu muito certa. No pós-guerra, a mulher jovem ganhou independência. Embora os suplementos femininos e as seções idem dos jornais e revistas a tratasse como um ser essencialmente doméstico e submisso a pais, irmãos e maridos, o fato é que a mulher ganhou liberdade, ganhou espaço, e entrou no mercado de trabalho, lado a lado, ombro a ombro com o homem. Quis, então, os mesmos direitos, a mesma liberdade nos costumes e na vida amorosa.

Não foi, portanto, a pílula. A pílula anticoncepcional pode até ter sido consequência desse avanço da mulher sobre um espaço social que ficava restrito e dominado pelos homens.

Nos anos 40 e 50, a mulher era tipificada, classificada. Começava com a grande divisão, moças boazinhas e moças mazinhas. A década de 60 começou, assim, com distinções claras determinando regras claras, socialmente aceitas, de comportamento: havia as mulheres “honestas,” e as que não o eram. As primeiras eram as donzelas, as casadas “de vida exemplar,” e as viúvas voltadas aos filhos e à casa. As outras, um espectro largo, que começava nas desquitadas, passava pelas meninas que se haviam “perdido” com algum namorado, isto é, que haviam transado com algum garoto e — assim se contava — “tinham sido abandonadas porque homem não gosta de mulher fácil” — e terminava nas atrizes, coristas, cortesãs (havia isso; também ditas putas de alto bordo), e as putas, simplesmente. Dentro do espectro das meninas “perdidas” havia ainda uma distinção fina, que separava “bandidas” das “pistoleiras.” Nomes que, se a gente pensam bem, eram quase elogios; menina bandida é menina que tomou nas próprias mãos sua conduta, sua vida. Às praticantes do arrière Vénus guardava-se o nome pejorativo, galinhas. Termo que, nos anos 50 e 60, só as designava, e mais nenhuma outra. O motivo, não sei.

Esta era uma tipologia finamente ajustada, um zoo do comportamento sexual baseado num código moral que vinha desde Brantôme, ou mesmo de antes, mas não de muito antes. E que, muito provavelmente, não existia na Idade Média, onde se olhava para essas coisas de modo muito direto; que o digam os textos incidentais e os comentários dos livros de linhagens portugueses, ou, mais explicitamente, os contos de Boccaccio. A hipocrisia sexual é, me parece, uma invenção, uma novação da burguesia, ou das classes médias urbanas.

Na prática, no Rio zona sul dos anos 50 e começos dos 60, a coisa era outra. Talvez o arrière-Vénus não fosse tão difundido como aparece nos livrinhos de Carlos Zéfiro, mas com certeza o petting, ou, em brasileiro, a sacanagem light & heavy, era comum nos casais de namorados. Ninguém se segurava; e, de vez em quando, alguma moça “se perdia.” Mas no espaço público a hipocrisia pairava soberana. Em 1966 Realidade, uma revista mensal da Abril, com artigos sobre variedades e um tom ligeiramente erudito-pernóstico-serioso, publicou uma matéria de capa com o título, “Eu fui mãe solteira.” Era o depoimento de uma menina cujo nome a reportagem escondia e que tinha engravidado ao transar com o namorado. Tinha dezesseis ou dezessete anos quando teve o filho; creio que já tinha chegado aos dezoito anos quando deu a entrevista a Realidade. Todo mundo sabia quem era a moça: frequentava a praia na Montenegro, em Ipanema (hoje, Vinicius de Moraes, homenagem que Vinicius recusaria sem dúvida). Era bonitinha, moreninha de cabelos encaracolados, brincos de argola quando ainda não eram moda os brincos de argola. Lembro de seu apelido: Tuca. Nunca soube seu nome.

A moça cometeu duas transgressões imperdoáveis. Primeiro, deu. Deu para o namorado. Depois, recusou-se a casar com ele, para “reparar o mal irreparável.” Tudo isso aparece no depoimento para Realidade, ou era sabido do pessoal que a conhecia. O governo militar teve um acesso de fúria puritana, e mandou recolher Realidade. A matéria era água com açúcar; mais decorosa ainda, mesmo, que este texto meu agora. Mas — via-se como algo que atacava a moral da família brasileira, ou coisa parecida.

1966 é quando a mini-saia, invenção ultragenial de Mary Quant, aparece no Brasil. E’ interessante falar um pouquinho mais sobre a moda da mini-saia. Mary Quant foi uma designer que produzia para um mercado específico: o mercado Silviano Santiago. Explico: o mercado para mulheres jovens, que trabalhavam, com vida independente. Eram moças que não queriam se vestir como meninas pré-adolescentes, ou como senhoronas. Assim a gente vê um paralelo entre a moda sexy e prática, de Mary Quant, e as mudanças que iam acontecendo no comportamento sexual, na classe média urbana brasileira. Ou no seu núcleo, Copacabana e Ipanema no Rio, anos 60 e começos dos 70. A moda Mary Quant dizia das mudanças de comportamento entre as mulheres.

(Lembro da discussão que houve, 65, 66, no Brasil, sobre a mini-saia. Já não ficava tão bem dizerem que a mini-saia era imoral. Diziam então que era antiestética porque mostrava os joelhos, parte supostamente feia da anatomia. Mas esses joelhos foram logo cobertos com botas thigh-high, e o argumento perdeu validade, ou sentido. e a sensualidade escancarou-se com o uso das botas thigh-high.) Os franceses pegaram a idéia de Mary Quant e foram adiante. Courrèges fez uns minivestidos lindos, bem haute couture. Em 66 saí com uma amiga que estava elegantíssima usando um desses vestidos Courrèges, imitando quadros de Mondrian. Cardin juntou botas brancas ou coloridas, de vinil, até o joelho, E Rudi Gernreich e Ungaro lançaram as botas acima do joelho, as botas thigh-high. Todas, aliás, flat, de salto baixo; a bota de cano muito longo era fetiche suficiente. A moda passou então a ser agressivamente erótica.

A coisa explodiu em 1971, quando inventaram as hotpants, o short pra sair de noite. Eram shorts bem curtinhos, de cetim, veludo, shorts curtos e de cintura baixa, algumas vezes com um cintinho tipo fetiche extra. Foi um período brevíssimo, de abril a julho ou agosto de 1971. Você saía e só via nas boates, nas discotecas, as meninas de short e botas pretas, brilhantes, longas, presas no meio das coxas com o tal cintinho que segurava tudo alto, esticado, no lugar. Era agressivamente erótico, e a uma tal moda correspondeu uma mudança de comportamento - em massa. A virada (literalmente...) se deu (epa!) em 1971, e não em 68. Foi aí a dita revolução sexual. Explicitada sem véus na moda, superprovocante, supererótica, daquele período.

Em 1968, no Brasil, mesmo quem estava na vanguarda intelectual ainda via o comportamento sexual pelo modo antigo. Flavio Macedo Soares publicou em 1969, em Cadernos Brasileiros, revista de cultura modelada sobre o Encounter inglês, e financiada por um fantasmagórico “Instituto Latino-Americano de Relações Internacionais” (que, dizem, era um alias para a CIA), Flavio publicou um ensaio sobre o Festival de Cinema do Rio, acontecido em 1968. Faz uma análise das meninas (depois chamadas groupies) que circulavam no festival:

“Essa falange era composta de moças em geral muito atraentes, e que eram as as mais jovens de todas [no festival], a geração de dezoito, dezenove anos. Fora do festival estão estudando na PUC e fazendo suas primeiras armas no circuito Country-Jirau-Bateau [clube e discotecas do Rio 68]. São o que há cinco anos atrás se chamava “meninas-programa”: querem sair, sair, sair, com gente que pague tudo o que elas querem, gente cheirosa, bem vestida, de carro esporte; querem ter mais sucesso que a amiga, e são capazes de dar em cima de um homem que detestam para tirá-lo de uma rival. O preço de qualquer um desses pequenos sucessos é ir para a cama. E isso por atacado, para valer, sem muita conversa. São meninas ainda, mas meninas trágicas, para quem a vida passa depressa e é preciso pegar o que se pode enquanto se pode; não querem nem mais a ascensão social e o casamento rico depois de uma boa dose de experiências. Não, isso já desapareceu, a experiência ficou crua, brutal. E’ preciso dançar toda a noite com uma música violenta a gritar nos ouvidos, beber na escuridão cheia de fumaça, e se deixar cortejar e apalpar, e é preciso a cada dia se provar, se provar, antes que a vida acabe.”

Fomos contemporâneos de colégio, e amigos, Flavio e eu. Mas sua visão é curiosamente, diria até, espantosamente, passadista. Flavio não via o que estava acontecendo: uma mudança nos costumes porque a mulher invadira, tomara espaços que eram, antes, privilegiadamente masculinos. Essencialmente, a tese de Silviano.

Outra marca na moda da mudança dos costumes foi o surgimento do biquini-tanga, ou string bikini, na praia de Ipanema, o que aconteceu em 1971. Na verdade, era uma recriação do biquini original, de Louis Réard, apresentado em Paris em 1946. A calcinha do biquini de 1946 já era mínima, mas o soutien cortininha só apareceu uns anos depois; e o nome bikini vinha do atol, no Pacífico, no qual se fizeram experiências com a bomba atômica — a idéia é que era moda igualmente explosiva. A tanga surgiu na passagem de 70 para 71 no pier, nas Dunas do Barato, trecho de prais em frente à rua Farme de Amoedo, em Ipanema, de onde se projetava para o mar a construção do emissário submarino de Ipanema. Havia ali um acúmulo de areia, as dunas, o cheiro de mato queimado, o “fuminho,” a maconha, era constante na área, a polícia não incomodava, porque só se preocupava com subversivos, comunistas et caterva, e a roupa de banho era ousada. Acontecia um ou outro topless, e inventavam-se modas. Uma delas, o uso de um conjunto de calcinha e soutien americano como roupa de banho das meninas; eram os conjuntinhos Melody, que qualquer contrabandista de calças jeans vendia — porque calças jeans só se compravam nos contrabandistas, da Dona Glorinha na Correia Dutra no Catete ao Mercadinho Azul em Copacabana.

Eram reduzidos, os conjuntinhos Melody, pequeninos. E foi daí, me parece, que surgiu a tanga. Marcando, como as hotpants e acessórios, ou a mini-saia, uma mudança completa no comportamento da mulher, nas grandes áreas urbanas do Brasil.

Mudou tudo? Aparentemente, hoje os namorados que o desejarem têm liberdade nas suas práticas amorosas. Mas tem também grupos que seguem a cartilha de Bush filho, e usam (e praticam o dito) camisetas com frases tipo “Sou virgem e me orgulho disso.” E, nos anos 90, numa coluna de aconselhamento amoroso de um jornal do Rio, vi que pastores evangélicos aconselhavam — o jogo antigo do sexo pelo arrière Vénus – às suas paroquianas. A uma moça casada que desejava satisfazer um namoradinho eventual, sem praticar o adultério, aconselhou o ministro, dê a frente para seu marido; para o namorado dê atrás. A outra, solteira e fisicamente virgem, aconselhou deixar que o namorado se servisse, como disse o personagem de Amarcord, de son intimità posteriore.

Como os curas paroquianos que, jesuiticamente, aconselhavam e orientavam as liberdades das grandes damas de Balzac. Como La Fille aux Yeux d’Or. Como algumas das moças nobres de Brantôme.

(Na imagem, cena de rua, 1971. Hotpants e botas thigh-high.)

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Margô: testemunho do Pedro; datas

Pedro postou no seu blog um testemunho detalhado sobre a mãe:

http://pedrodoria.com.br/2008/04/15/minha-mae/

Algumas correções: Margô não era tímida, era recatada e discreta. Detestava gente chata, a quem devesse as hipocrisias sociais correntes, a quem devesse tratar bem e aturar. Fugia então, se escondia.

Acerto também as datas.

Nos conhecemos na casa de Nise da Silveira, numa reunião do Grupo de Estudos C. G. Jung, em 16 de maio de 1973, uma quarta-feira. Foi elétrico. Saímos depois, vários amigos e Margô no meio, para jantar no Recreio, uma churrascaria ali perto, e levamos junto o marido da Nise, Mário Magalhães. Na conversa no jantar descobriu-se que Mário e Nise tinham sido muito amigos dos avós de Margô e de seu pai. (Mário foi nosso padrinho de casamento.)

Duas semanas depois saímos pela primeira vez. Margô, estudante de medicina e querendo fazer psiquiatria, me pediu que a levasse ao serviço da Nise, no hospital de Engenho de Dentro. Passamos junto boa parte do dia — voltando de Engenho de Dentro, fomos à Quinta da Boa Vista lagartixar, porque a tarde estava de veranico de maio.

Aí viajei, fui a um congresso científico na Europa, e fui conhecer alguns cantos das oropas, Roma, Florença, Londres, tipo mochileiro. Voltei em 14 de agosto. Liguei para Margô chegando; voltamos a sair. Começamos a namorar nos inícios de setembro, resolvemos casar pouco depois, e nos casamos em 21 de dezembro de 1973. Sugeri eu mesmo a data, porque era o solstício de verão. Coincidência: era o dia em que se faziam batizados e casórios na família dela, desde meados do século XIX, em homenagem a uma avoenga dela, cujo retrato devidamente entronizamos então na parede com retratos dos antepassados aqui em casa.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Margô, filmes

Vai em suite ao que Pedro postou no blog dele.

O filme de Bergmann favorito de Margô era Fanny e Alexander. Mas, ultimamente, seu diretor favorito tinha passado a ser Clint Eastwood. Filmes favoritos deste: Midnight in the Garden of Good and Evil, The Unforgivable. Ainda baixei para ela rever - não deu tempo - dois filmes que nos haviam impressionado muito: Providence, de Alain Resnais, e Identificazione di una Donna, de Antonioni.

Recusou-se a rever comigo L’Année Dernière à Marienbad. Mas vimos juntos, várias vezes, The Godfather, o ciclo completo, e o Guerra e Paz russo, de Serguei Bondarchuk. E uma piada sua: segundo Margô, Le Dernier Tango à Paris, que consideramos um dos grandes filmes de todos os tempos era, An American in Paris, Twenty Years Later

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Margô


Margô, minha mulher, Margareth Rubim de Pinho Accioli Doria, morreu ontem. Tinha 55 anos; quando nos casamos tinha 21 anos e eu quase trinta — fui chamado de infanticida, o termo de então para pedófilo. Margô descrevia nosso casamento como uma sequência de filmes. Começava com Nove e meia semanas de amor, e seguia com uma comédia água-com-açúcar bem anos 50 de Cary Grant e Doris Day, numa casa cheia de jardins, gatos e cachorros.

Terminou como uma Love Story cruel. Não foi leucemia, foi outro câncer. Quase quatro anos entre as primeiras manifestações da doença, e a morte.

Tivemos três filhos. Vivemos boa parte da nossa vida de casados na casa tipo Doris Day & Cary Grant em Petrópolis. Agora, tive cortada a metade direita de meu corpo. Vou seguir adiante — me arrastando.

(Na foto, de 1974, novembro. Pedro tinha nascido duas semanas antes, estávamos em casa de papai, e tínhamos brigado, alguma coisa que não me lembro. Ela estava furiosa comigo.)

domingo, 23 de março de 2008

1968, XV - A moveable feast, III

A terceira grande festa aconteceu duas semanas antes do Ato 5, em fins de novembro de 1968. Foi dada em minha homenagem e em homenagem a Marcos Vasconcellos. Tinha feito, dias antes, vinte e três anos. Logo em seguida recebo um presente especial, as provas em paquê de meu primeiro livro, Marcuse Vida e Obra, a ser publicado pelo João Ruy, pela José Álvaro Editor, conforme combinado em casa de meu primo, dois meses antes.

Por que Marcos Vasconcellos? Marcos tinha uma casa em frente à casa do meu amigo que me oferece a festa e também fazia anos em novembro. Casa bonita a do Marcos, estilo clean, com uma piscina que dava vista para toda a Lagoa e para o Jardim Botânico, uma varanda sobre a zona sul do Rio. Foi nesta piscina e nesta varanda sobre o cartão-postal da zona sul que, meses mais tarde, Marcos recebeu um tenente do exército que lhe deu voz de prisão. Marcos estava com uma amiga; bebia uísque, o dia era ensolarado e de céu azul. O tenentinho apressou-o, vai se arrumar, o senhor está preso! Responde Marcos, antes toma comigo um uísque. Olha a paisagem. Olha a moça aí. Aproveita um pouquinho. Você não vai ter outra chance de beber um uísque tão bom. Olha a paisagem: sua casa não tem, nunca vai ter uma paisagem como esta. Olha a moça: você jamais vai comer moça tão bonita.

Vou preso com você, sim. Mas antes relaxa meia-hora e aproveita um pouco da minha boa vida.

(Agora, algo da história da editora, da José Álvaro Editor. Quem a fundou foi um jornalista do Correio da Manhã, nos anos 50, José Álvaro. Nos domingos escrevia uma coluna, J, J & J — não lembro quem eram os outros JJ. A José Álvaro publicou muita crônica, muita coisa de autor que despontava. Em meados dos 60, Zé Álvaro vende a editora para João Ruy. No pacote, um sucesso de vendas, a coleção Vida e Obra, com biografias de Freud, Jung, Brecht, todo esse povo. Nos anos 70 a José Álvaro passa para Fernando Gasparian, que havia comprado também a Paz & Terra, de Enio Silveira. E o José Álvaro original se muda para Petrópolis, onde faz jornalismo no Diário de Petrópolis e onde, enfim, vou conhecê-lo. Ficamos amigos, passo a escrever muito para o mesmo jornal, que ele, Zé Álvaro, termina editando, até sua morte em 1979.)

A festa em minha homenagem e em homenagem ao Marcos foi num sábado, o último daquele mês de novembro. Faço as contas: 30 de novembro de 1968. A casa onde fizemos a festa tinha três andares, e ficava meio acavalada na encosta da Floresta da Tijuca subindo para o Corcovado. Da rua até sua entrada principal eram uns quarenta e cinco, cinquenta degraus. Fui para lá ajudar meu amigo. Muita cerveja, uns dez engradados com aquelas garrafas antigas de cerveja, de vidro grosso, o casco marron. Coisa de supermercado para fazer as comidas. Tinha que ajudar a levar tudo para cima, subindo aqueles cinquenta degraus. Peguei a primeira caixa de cerveja, penei, parei bufando nos primeiros vinte degraus. Chego lá em cima arrebentado, sem saber como fazer para carregar as outras caixas.

Meu amigo me mostra: olha só, diz. Se curva, joga sobre os ombros o caixote, e sobe correndo, de uma vez só, os cinquenta degraus. Pergunto como ele, quinze anos mais velho que eu, faz aquilo. Responde bruto:

— Fui besta de carga em Buchenwald.

Meu amigo, judeu, estivera preso num campo de concentração nazista. Estamos, naquele momento, a vinte e poucos anos de distância do fim de Hitler, mas me assusto e me sobressalto, uma sensação de horror, momentânea, me agarra. Ele percebe e continua, esquece, estou aqui, e já é passado.

Voltamos à preparação da festa. As caixas todas de cerveja e de cocacola na cozinha e na copa, está na hora de um cochilo, e da gente tomar banho e se arrumar. Descanso, me banho, me visto, são nove horas, o pessoal vai chegando, vai chegando.

A festa enche. A casa era grande, mas a sala fica compacta de tanta gente. Não tem muita luz, tem música alta, tem gente dançando, gente se agarrando, gente ficando muito doida. Nalgum canto, fuminho correndo, gente sentada no chão, doidona.

Como de hábito, como nas outras festas, glitteratti e beautiful people. Vejo de relance algumas atrizes de cinema, está realmente escuro, mas parece que o pessoal do cinema novo baixou todo no pedaço. Uma das atrizes se agita mais; vou chamá-la Isadora. Vestida de branco, um vestido comprido e esvoaçante, molengo, Isadora está no meio da sala, junto de uma mesa baixa, mesa de centro. Pede música lenta, colocam alguma coisa mais devagar. Sobe na mesa, e começa a se despir, começa um strip. Todo mundo bate palmas, o ritmo das palmas é diferente do ritmo da música, mas ninguém ouve mais a música, só se ouvem as palmas e só olham para Isadora, que vai se despindo. Quando tira o soutien, grita, quem quer me comer? quem quer me comer? sou muito experiente, já fiz quatorze abortos…

Apago pouco depois disso, num dos quartos da casa. O domingo, primeiro de dezembro, acorda nublado. Não vai dar praia; e começa o dezembro do Ato 5.

Houve outras muitas festas em 68, claro. Por exemplo, a festa de despedida de Marcito, Marcio Moreira Alves, em fins de setembro, na casa de Heloisa Buarque de Holanda, no Horto. Mas muita gente já contou sobre esta festa — Marcito ia para a Europa, e deixou para trás toda a tempestade que desabou feroz com o Ato 5.

Vou contar, ainda, sobre uma última das festas do ano, uma festa que teve uns dez casais, se tanto; uma orgia, bacanal, suruba, dêem o nome que quiserem. Deprimente como filme de Antonioni, como La Notte ou L’Eclisse.

Um amigo me pega em casa, em Botafogo, o Beto, numa rural wyllis. Entro, vejo gente que não conheço; umas moças até que bonitinhas, uns carinhas desconhecidos. Me diz, vamos a uma festa no Alto da Boa Vista, no meio da Floresta da Tijuca.

Vamos pela Avenida Niemeyer. Em São Conrado, uma parada, para pegar mais um convidado — convidado? era tudo uma coisa improvisada, estava parecendo. Percebo que dois outros carros estão nos seguindo; param enquanto embarca o tal convidado de São Conrado. Mais velho que nós, todos pelos vinte e poucos anos; teria talvez quarenta anos. Era piloto da Panair, logo soube; desempregado, portanto. No fim de São Conrado embicamos à direita, pela Estrada das Canoas. Passamos o viaduto, descemos a estrada junto à Pedra da Gávea, deixamos para trás a Gávea Pequena, andamos mais um pouco e chegamos a um portão com dois marcos imensos, lado a lado, de pedra. Além do portão e dos marcos, uma estrada entrando num parque escuro — ainda assim, a noite estava límpida, era junho ou julho, e a lua estava cheia, ou quase, e iluminava os topos das árvores do parque.

Entramos. Passamos o portão, os três carros. Andamos muito, quase um quilômetro. Espero ver um castelo no fim daquela estrada, e de fato a casa era quase um castelo. Neocolonial, cercada de jardins formais, com uma piscina grande na parte dos fundos, depois vi, lembrava um pouco o antigo Solar do Monjope, já demolido, em frente ao Parque Lage, o Monjope, cenário de Terra em Transe.

Era enorme. Paramos em frente da casa, onde existiam uns janelões quase se abrindo para os jardins formais, debaixo de uma balaustrada, de um balcão se debruçando sobre os jardins. A entrada era pelo lado, através de uma porte cochère; era um portal imenso, com duas folhas. De um dos carros de trás vinha andando depressa o filho dos donos da casa, trintão, meio careca apesar de ainda moço, com uma penca de chaves. Estamos esperando na porta do casarão, eu, o Beto, o aviador que morava em São Conrado, um rapaz que não conhecia, e três moças (tinham ficado quietas toda a viagem), de microssaias, isso mesmo, sainhas meio rodadas mas ultracurtas, sapatos de salto tacão, como se usava naquela época, meias de nylon, caras até que bonitinhas, mas que não combinavam nada com aquela casa.

O filho dos donos da casa luta com as chaves, abre a porta. Entramos, um hall de mármore, grande; uma porta em arco abrindo-se para um salão de pé direito muito alto, tudo branco, neocolonial, o dos janelões e, no fundo, uma escadaria para o andar de cima. O dono avisa: não quero zona no quarto da minha irmã, fica aqui em cima, e aponta na direção da balaustrada sobre o jardim.

No fundo do salão um bar americano, tipo anos 50, móveis de pé de palito, bem cenário de filme da Atlântida, ou de história em quadrinhos, das primeiras, de Mickey Mouse. Um equipamento de som ao lado, ultra-espetacular, com altofalantes eletrostáticos.

Os dez ou doze casais enchem logo o salão. O dono da casa, Carlinhos, coloca duas ou três garrafas de uísque bom em cima do bar, e copos e dois baldes de gelo. E umas comidinhas, biscoitinhos salgados.

Mas estou distraído com os quadros nas paredes. Tinha uma paisagem de Antonio Parreiras; dois retratos, um homem e uma mulher, de Rodolfo Chambelland, e um óleo pequeno que me parecia Portinari, embora sem assinatura. Tudo iluminado com luzinha em cima (o homem e a mulher retratados por Chambelland, depois perguntei, eram os avós do Carlinhos).

Tenho que arranjar companheira, ou vou sobrar. Perto de mim uma moça moreninha no uniforme de todas, microssaia e sandália de tacão. Tem música, a gente dança. No meio da sala a mesa baixa inevitável, e uma das moças sobe ali e começa um strip — parece que mesa de centro de sala é como queijo de inferninho, mulher tem que subir lá e tem que fazer strip.

O ambiente é estranho; meio dissonante. Os casais se pegam, uns somem nos quartos (menos no quarto da irmã do Carlinhos, isso todo mundo respeitava, até porque ele lembrava a proibição de tempos em tempos), outros vão se guentando nos sofás da sala.

Até que o aviador de São Conrado, o piloto da Panair começa a falar. Fala baixo, mas as pessoas ouvem sua voz, mesmo que envolvidas nas transas de cada um. Fala da amargura da sua vida, da mulher que largou ele, dos filhos que queria ter tido, dos fracassos pequenos de seu dia a dia. Fracassos dolorosos porque medíocres. Infelicidades pequenas. Fala em voz baixa, desanimada. Fala como no refrão de A Canção da Terra, de Mahler, dunkel ist das Leben ist der Tod. Negra é a vida, negra é a morte.

Já tendo completado minhas atividades ali com uma daquelas meninas, ouço o aviador na sua fala insistente, fala de profeta. E vejo ao fundo, ao som da voz do aviador, uma cena erótica desesperada: um carinha sentado no sofá, uma moça com a cabeça no seu colo, alongada no mesmo sofá. Agarrava-se no corpo do rapaz, fazia um vai-e-vem furioso e sem fim com a cabeça, e o rapaz estremecia como se doente de dança de São Guido.

(De relance, agora, num flash de memória, uma cena semelhante. Ipanema, de tarde, tarde de outono, meio friozinha, chuvosa, no quarto de um apartamento dos anos 40 que ficava numa das ruas transversais cheias de árvores; este, o cenário. A namorada se aplica em trabalhos manuais e orais no namorado, que geme baixinho. A música de fundo era mais adequada, melhor que as lamentationes, os threni, do aviador — era Guiomar Novais tocando o concerto em lá menor de Schumann, o concerto de onde foi chuchada Besame mucho.)

E o aviador sempre falando do negrume da vida e do negrume da morte.

Cinco da manhã, surgia a filha da manhã, dos dedos de rosa a aurora. Vou até a balaustrada que dava para o quarto da irmã do Carlinhos ver o nascer do Sol. O parque da casa era imenso; como que continuava num mar de árvores até o horizonte, ao fundo, a Pedra da Gávea, os morros da Floresta da Tijuca. Carlinhos vai lá me pegar, reclamando, pois o quarto da irmã era off limits. Digo, estou só vendo o jardim.

Diz, tá na hora de ir embora. Não quero que o caseiro nos encontre; ele abre a casa às oito.

Deixo rhododáktulos eós, dos dedos de rosa a aurora, para trás. E também a negritude da vida do nosso bom aviador.

quinta-feira, 20 de março de 2008

1968, XIV - A moveable feast, II

A segunda grande festa foi o Baile da Baronesa.

Para mim, começou na manhã de sábado. Era nos começos de novembro de 68; sábado de Feira da Providência. Naqueles anos a Feira da Providência realizava-se na Lagoa, junto da Hípica, e era o lugar onde você tinha que ir para saber das coisas, dos programas, das festas. Fui com uma pintora — vinte e poucos anos, pele muito branca e cabelos muito pretos e olhos pretos pintados tipo olhos de Cleópatra. E corpo violão, bem violão. Brincava com isso, se fazia de gostosa, era toda caras e bocs; mas pintava quadros interessantes. Ia vender quadros nalguma barraca — tinha o tal Setor Umuarama, sei lá por que levava esse nome — cheio de meninas bonitinhas, era o setor principal, e minha amiga (vou chamá-la de Marise) a pintora me arranjou uma credencial de ajudante-umuaramesco, e lá fui eu, dez da manhã, a feira abrindo, procurar a barraca da Marise.

Me perguntava ali por que ela, Marise das caras-e-bocas, tinha me escolhido como seu par. Bom, a resposta era óbvia; eu era um dos glitteratti do momento, ainda que um glitteratto meio de segundo plano, de modo que merecia acompanhar a Marise caras-e-bocas, Marise dos olhos de Cleópatra, Marise corpo de violão.

E ela fazia, sim, caras mis e zilhões de bocas; não falava, posava. E eu, junto dela, de glitteratto coadjuvante.

A festa da noite foi combinada ali; era o Baile da Baronesa. Alguém, parece que o Jaguar, alugava um casarão numa rua interna que ficava entre a Farani e o comecinho do Flamengo. A casa estava plantada no meio de um jardim enorme, muitas árvores mas também muitas lâmpadas iluminando as folhagens, energia ainda era coisa barata. À volta da casa uma varanda bem larga, e lá dentro, salões e mais salões, no primeiro andar, e quartos e mais quartos no segundo andar. O ambiente era muito doido; agora, relembrando aquela festa a quarenta anos de distância, eu sozinho — Marise das mil caras e bocas tinha sumido logo depois de entrarmos na festa — andando pelos salões em baixo, penso que as coisas eram um pouco feito a bacanal da sociedade secreta em Eyes Wide Shut de Kubrick. Mas sem solenidade, com escracho; e sem sexo explícito (que devia estar acontecendo, se fosse o caso, no segundo andar). Tinha, sim, nos salões, muito casal se atracando sem dar grande bola ao pessoal à volta, e sem chegarem às vias de fato. E eu passeando, devagar e sem o que fazer, só olhando.

Lembro de flashes da festa, cenas rápidas. Um deles: estou entrando num corredor quando vejo, melhor, revejo, reencontro, um professor meu de ginásio e colegial, professor que não via há cinco anos. Era boa pinta, elegantíssimo, no colégio; continuava boa pinta e super-elegante. Todo mundo sabia que ele era casado com uma passista de escola de samba — e agora, via esse meu professor surgir de um dos cantos do corredor no Baile da Baronesa, agarrado com a mulher e com uma das cunhadas. Me olha, me reconhece, e me fala como se não me visse há cinco minutos, e não há cinco anos, de porre mas distinto como sempre, Francisco Antonio, não está com inveja de mim? Não quer nos acompanhar?

Foi em começos de novembro, mês e meio antes da débâcle do Ato 5.