terça-feira, 24 de junho de 2008

Brancaleone da Norcia


(...ou a história de alguns antepassados de capa-e-espada.)


Personagens de histórias de capa e espada; é a parte divertida dessa gente.

Começo em Guidalotto Acciaioli, filho de Acciaiolo Acciaioli, que aparece citado entre os que se envolvem na guerra contra Arezzo em 1290. Casou-se com Ghisella … , cujo sobrenome se desconhece. A linha principal da família descende de seu filho primogênito Mannino, ou Tommaso.

Foi neto de Guidalotto, através de um seu outro filho com o nome de Niccolò o grande Nicola ou Niccolò Acciaioli, filho de messer Acciaiolo Acciaioli, banqueiro do rei de Nápoles, e de sua mulher Guglielmina de' Pazzi, e feito Barão de Basciano pelo rei Roberto de Nápoles. Nicola Acciaioli, filho de Guidalotto, está entre os cidadãos de Florença que se armaram, em 1289 e 1290, para combaterem Arezzo. Participou da senhoria de Florença como prior em 1289, 1294 e 1298, e como trazia o título de giudice, juiz, presume-se que fosse doutor em leis.

Seu filho messer Acciaiolo Acciaioli fundou a filial do banco Acciaioli em Nápoles. Filho natural do juiz Nicola, quando, em 1313, visitando Gênova, Henrique VII de Luxemburgo era celebrado pelos Dorias, que assumiam as armas com a águia imperial em sua homenagem, este messer Acciaiolo Acciaioli era listado como rebelde na sentença promulgada pelo imperador contra os florentinos.

Mais precisamente, enumera a sentença:

Dardanus et Lelmus fratres de Acciaiuolis; Montemanni et Acciaiuolus quondam Niccoli de Acciaiuolis; Tile, Bindus, Ugho et Pierus Oddi de Acciaiuolis.

A sentença de Henrique VII de Luxemburgo data de 1313; os condenados, entre os Acciaiolis, são Dardanno, principal partner do Banco Acciaioli; seu irmão Leone (“Lelmo”) Acciaioli, que é inclusive ancestral do ramo luso-brasileiro; Monte filho de Mannino — pai do bispo Angiolo Acciaioli, o que expulsa de Florença o podestà Gauthier de Brienne; messer Acciaiolo Acciaioli, grão-senescal. Os demais citados ou são obscuros ou são personagens de identificação difícil.

Sentença inócua, por sinal. Messer Acciaiolo fixa-se em Nápoles depois de 1311; em 1335 o rei Roberto de Nápoles nomeia-o como seu vicarius, enviado, em Prato. Mesmo assim, exerce cargos na senhoria de Florença, em 1322 como prior e em 1332 e em 1337 como gonfaloneiro di compagnia. Riquíssimo devido à sua proximidade aos reis de Nápoles, a Roberto e sua sucessora Giovanna I, morreu depois de 1349, tendo testemunhado a ascensão de seu filho Niccolò, o futuro grão-senescal.


Niccolò Acciaioli, grão-senescal de Nápoles.

Nasceu Nicola ou Niccolò Acciaioli em Montegufoni em 12 de setembro de 1312, e faleceu em Nápoles em 8 de novembro de 1366. Litta, com outros historiadores, afirmam haver sido Niccolò Acciaioli o maior estadista de seu tempo; foi grão-senescal do reino de Nápoles, vice-rei da Apúlia, Conde de Melfi e Malta, Conde da Campanha, em Roma, Senador de Roma, etc. etc. Recebeu de Inocêncio VI a Rosa de Ouro, havendo sido o primeiro cidadão privado, não ligado pela família a uma casa real, assim homenageado. (No século XIX, Izabel a Redentora, sua longínqua parenta, recebeu a mesma homenagem, devido à libertação dos escravos no Brasil.) Sua linha está extinta na varonia, mas persiste até hoje na nobreza de Nápoles.

Breve resumo da biografia de Nicola ou Niccolò Acciaioli, o grão-senescal. Não lhe faz justiça. Vou juntar boa porção de carne agora, sobre este esqueleto.

Começo no nascimento. Nicccolò Acciaioli nasceu ao amanhecer, no dia indicado de 1310, em fins de um verão, em Montegufoni, a casa di signore que os Acciaiolis possuíam em Val di Pesa, entre Florença e Siena…

Não, não está bom. Vou tentar descrever como vejo sua biografia, na minha cabeça. Primeiro, vejo uma tela em cinemascope, em technicolor, e música de Elmer Bernstein, fanfarras. Aí, sobre a paisagem toscana, o céu azulíssimo, as montanhas ao fundo — Vita di Niccolò Acciaiuoli, grandissimo personaggio. Ambiente quase de filme épico, filme de faroeste épico (se bem que, em italiano, acaba sendo western spaghetti. Mas, bem que dava para Clint Eastwood representá-lo, ao nosso Niccolò.) De repente, e inesperadamente, do fundo, correndo em seus cavalos, cavaleiros com armaduras da cabeça aos pés, e, à sua frente, chegando-se ao primeiro plano, um que traz uma bannière, bandeira quadrada, branca e carregando o leão de azul dos Acciaiolis. É Niccolò.

(Mas minha cabeça me prega peças: queria algo épico, fosse como filme de Errol Flynn, ou, talvez, de Mel Gibson, Braveheart, ou The Patriot. Mas a cena que se me aparece é mais como L’Armata Brancaleone, e, ao levantar a viseira do elmo, Niccolò revela, surpresa!, o rosto de Vittorio Gassmann…)

De qualquer forma, tento roteirizar a vida de Niccolò. Daria um belo filme de capa e espada. Mesmo se tratado à Brancaleone da Norcia.

Niccolò Acciaioli nasce em Montegufoni, no fim do verão de 1310. É criado entre o castelo da família, nos campos, e o palazzo dos Acciaiolis, contruído por messer Leone de’ Signori no século XIII, em Florença. Casa-se aos dezoito anos com Margheritta degli Spini. (Corta para a cena do casamento, baseada, talvez, num livre d’heures: a noiva, vestida de veludo azul com debruns prateados, em homenagem às cores da família do noivo, e este como um Romeu clássico, talvez o de Leslie Howard, menos que o de Zefirelli. Mas um Romeu garoto, não velhusco feito o Howard.)

Aos vinte e um anos o pai, banqueiro do rei Roberto de Nápoles, envia-o para a sucursal napolitana do banco familiar. Niccolò chama a atenção de Caterina di Valois-Courtenay, a imperatriz titular de Constantinopla, viúva, cunhada do rei. Tornam-se amantes. (Catherine Deneuve, hoje, seduzindo um rapazote? Cenas de cama, os amantes nus, mas tudo visto à distância, entre véus? Ou a Atia do Roma da hbo, pegando um garotinho? Ao fundo algo bem lugar comum, a baía de Nápoles à noite?)

Niccolò Acciaioli sobe rapidamente no ambiente da corte de Nápoles. Torna-se o administrador do principado de Taranto, apanágio de um ramo da família real, e recebe em doação, como senhorio, Prato, depois da morte de Acciaiolo, seu pai. É feito Barão da Moréia, e para lá parte em 1338. (Cenas marítimas, um navio precário, Niccolò-Brancaleone na proa olhando o horizonte, mar agitado mas sem sinal de tempestade.) Lutas, batalhas (cenas tomadas a Brancaleone ainda?) Niccolò concebe seu lema,

Nil pavebit occursum.

Ninguém faz medo ao oponente. E o oponente é Niccolò.

Niccolò Acciaioli volta a Nápoles, cheio de riquezas pilhadas na Grécia, e parte para Florença, onde fica até 1342. Volta a Nápoles, no meio de uma tremenda intriga de corte. (Aqui a cena em minha cabeça é, muito honestamente, chuchada de Brancaleone, a corte de Nápoles é como a corte bizantina no filme de Monicelli, as mulheres de olhos muito pintados de preto, unhas longuíssimas, gestos estranhos — e lúbricos até a gente não se segurar mais de tanto riso.) É o momento da grande crise da sucessão do rei Roberto.

Roberto morre em 19 de janeiro de 1343, deixando como herdeira à neta, Giovanna, depois Giovanna I. Casada com um primo, Andrea de Hungria, não lhe mostra grandes afetos, e seus muitos amantes se sucedem e são de conhecimento de todo mundo na corte. O ponto culminante da crise é o assassínio de Andrea, em 18 de setembro de 1345; o príncipe é estrangulado nos próprios apartamentos reais. Ao que parece, Niccolò Acciaioli não era estranho à conjura que matou o consorte — no caso, o sem sorte — mas não há evidências a respeito, fora evidências circunstanciais. Mas o envolvimento da rainha Giovanna é notório, e o escândalo cresce a ponto de o papa excomungá-la. (Aqui o que vejo é a morte de Davide Rizzio, o pagem favorito de Mary Stuart, assassinado pelos nobres escoceses quando se agarrava às saias da rainha. Há um quadro do século XIX, não lá grande coisa, quase imagem de Tesouro da Juventude, representando esse outro assassínio. A morte de Andrea de Hungria deve ter sido semelhante.)

Logo em seguida, Niccolò Acciaioli se mete noutra conjura, dessa vez para forçar a rainha a se casar com um personagem politicamente conveniente. O marido que Niccolò escolheu foi Luigi di Taranto, filho de sua amante Caterina di Valois-Courtenay, seu pupilo. Niccolò Acciaioli agarrou Luigi, jogou-o no quarto da rainha, trancou a porta e gritou, scandalo! Cena de ópera bufa. Para salvar a honra de Giovanna, imaginem só, só o casamento, que se deu em 20 de agosto de 1347. Neste momento, Niccolò Acciaioli torna-se senhor de fato do reino de Nápoles — e a memória desta sua singularíssima posição é o que me passou meu pai naquela tarde em Friburgo, quando começou a me contar histórias da família.

Reação do outro pretendente, ao trono de Nápoles e à mão (e leito) de Giovanna, Ludovico da Hungria: levanta-se contra Niccolò, que foge levando consigo o casal real, Luigi e Giovanna. Giovanna abriga-se na Provença com mais um amante, um Caracciolo, enquanto que Luigi e Niccolò dirigem-se à Toscana, ao castelo dos Acciaiolis, Montegufoni. Lá chegados, recebem dois embaixadores da república de Florença, que os dizem personae non gratae em Florença. Niccolò chama então seu parente Angiolo Acciaioli, o terrível bispo de Florença que fez depor Gauthier de Brienne, podestà da república — adiante conto sobre ele — e com o bispo e Luigi di Taranto, embarca para Avignon, onde já estava a rainha Giovanna. (A cena em Montegufoni dá para filmar, na própria locação dos fatos. Com os embaixadores se curvando diante do mercador compatriota que se tornou em grão-senhor feudal. Deve-se apenas tomar cuidado para apagar das imagens filmadas a torre que existe hoje no castelo, construída em fins do século XIV em imitação à torre do Palazzo Vecchio em Florença.)

O dinheiro do mercador compra exércitos: Niccolò Acciaioli assolda galeras genovesas, que transportam de volta o príncipe e a rainha a Nápoles, onde desembarcam e reconquistam o reino em 31 de agosto de 1348. Logo em seguida, Niccolò é feito grão-senescal do reino, e declarado primeiro dos funcionários do estado, com poderes de um primeiro-ministro e lorde-protetor de Nápoles. É também feito Conde Palatino de Melfi (Amalfi), com o privilégio de poder transmitir aos herdeiros terras, bens, e o título referido. Sofre um atentado (aqui, um lugar comum visual: Niccolò andando numa ruela estreita, de noite, e de repente alguém pula de um beco e o apunhala). Pouco depois, perde o filho primogênito e herdeiro, Lorenzo Acciaioli, que será enterrado na Certosa de Florença, aos pés da sepultura do pai.

Voltando a Florença para receber o imperador Carlos IV — que o convida a segui-lo na Alemanha, onde lhe daria novas honras, o que Niccolò Acciaioli recusa porque já era senhor de fato de Nápoles — choca os concidadãos seus, florentinos, ao andar pelas estradas com um séquito de cento e cinquenta homens armados, e a celebrar contínuos banquetes luxuosíssimos no palazzo familiar, no Borgo de’ S.S. Apostoli. É feito Conde de Malta e de Gozzo.

(A cena dos banquetes, bom, me lembra de novo os bizantinos tarados de Brancaleone. Lembro também que, há quinze anos, em Florença mesma, me levaram a jantar num restaurante onde se comia como no século XIV. Ou tinha bebido muito, ou não vi lá grande diferença na comida, deliciosa de qualquer jeito.)

Em 1356 acolhe em Nápoles dois primos: Neri, o futuro Duque de Atenas, e Angelo di Alamanno, e abriga, no castelo da irmã Lapa, odiada por Boccaccio, que a chamava Lupisca, a Loba, o casal real de Nápoles. Realiza uma reconciliação e trégua no reino, entre as facções litigiosas da família real. Estamos chegando ao clímax da vida de Niccolò Acciaioli.

Em 1359 o papa decreta sobre Nápoles um interdito — proibição de qualquer atividade religiosa, batismos, casamentos, sepultamentos, missas, e qualquer sacramento — porque não lhe foram pagos certos tributos religiosos. Niccolò Acciaioli é então enviado ao papa, para negociar um acordo. Age com tal habilidade que não só o interdito é levantado, como também é nomeado senador de Roma, reitor (administrador) de Bologna e da Romagna para os bens eclesiásticos, e Conde de Campagna.

E, maior de todas as honras, no dia de Pentecostes de 1360 recebe a Rosa de Ouro, sendo como já disse o único indivíduo não pertencente a uma família soberana a receber esta máxima homenagem de um pontífice. (Tento visualizar esta cena, mas sem grande sucesso fora dos lugares comuns mais óbvios: uma figura de branco, franzina, o papa, entregando a Niccolò a rosa de ouro, na verdade três rosas com suas hastes, de onde saem algumas folhas, todas de ouro, colocadas numa jarra também de ouro. Niccolò pode aparecer aqui como no retrato que existe na Certosa florentina, numa armadura quase negra, sem elmo, os cabelos ainda escuros, calvície avançando da fronte. O cenário é Avignon, o Palácio dos Papas, uma fortaleza medieval, sóbria. Não consigo imaginar mais que isso.)

Já doente, em 1364, Niccolò Acciaioli precisa escrever uma memória autobiográfica, enviada ao papa para justificar-se face a acusações de seus inimigos. Poderoso sempre na política, mas enfraquecido pela doença, cuida de gerir seu patrimônio e de distribui-lo pelos filhos e pelo parente que adotara, Neri di Jacopo Acciaioli, que mandara para a Grécia, onde fundará um principado sob duques soberanos da casa dos Acciaiolis, antes ainda que chegue ao fim o século XIV.

(Não sei como seria a cena final, Niccolò Acciaioli morrendo. Me esforço para ver, dentro de minha cabeça, algo grandioso, mas só me lembro do bico-de-pena de Gustave Doré mostrando a morte de D. Quijote. Será que isso significa estar meu inconsciente sugerindo um paralelo entre D. Quijote e Niccolò Acciaioli? Como poderia ser este paralelo? D. Quijote, fidalgo de nobreza antiga mas arruinado, meio louco, o último dos cavaleiros andantes. Niccolò Acciaioli, mercador florentino que de repente, em Nápoles, se transforma num condottiero feroz e num político habilíssimo, maquiavélico avant la lettre. Será que, na essência, seriam a mesma coisa, o mesmo arquétipo? Duas faces de Jano para a mesma criatura?)


Uma família de intelectuais?

Niccolò Acciaioli é lembrado como um grande estadista, talvez o maior estadista, na Itália que ainda não existia, do século XIV. Mas sua grande obra, que permanece até hoje, foi a Certosa de Florença, em Val d’Ema, projeto que o ocupava desde 1338. Na Certosa, concebeu também um grande prédio anexo, o Palazzo degli Studj, que deveria abrigar estudantes e scholars, uma espécie de centro universitário, já que em Florença não existia, então, universidade.

Era com certeza o sonho maior de Niccolò Acciaioli. Numa carta ao parente Jacopo di Donato Acciaioli, em Florença, que chama fratello, irmão, diz o grão-senescal:

Jacopo, io ti dico che tutte le mie consolationi si riposano a lo nostro santo munisterio. Tutti li rifugii de le tribulationi che per li inopinati casi occurrenti mi potessino occurrere, là si reducono. Nulla casa possedo che mi pare che mia sia, se non quello munisterio. A tutte hore che io penso a lo dicto munisterio, sono da me fugate ire e malinconie, e, per certo, se io avessi denari, io lo farei lo plu notabile loco a tutta Italia.

Jacopo, digo-te que todas as minhas consolações repousam no nosso santo mosteiro [a Certosa]. Todos os refúgios das tribulações que pelos casos inopinados possam ocorrer, lá se reduzem. Não possuo nenhuma casa que pareça ser minha, salvo aquele mosteiro. A toda hora que penso no dito mosteiro, fogem de mim iras e melancolias, e, por certo, se tiver dinheiro, vou fazê-lo o mais notável lugar de toda a Itália.

Tinha sensibilidade intelectual, e refinamento. Quando morre o humanista (ou pré-humanista) Zanobi da Strada, Niccolò Acciaioli escreve a seu familiar e amigo, o tabelião Landolfo, chamado Gazza, ou Cajazza:

…dipoi che’l mondo è robato di tale e tanto homo chui simile non surse ne fu audito o veduto forse mille anni sono passati, e un altro solo, messere Francesco Petrarcho poeta, escietuato.

(Após o mundo ser roubado de um tal homem, tal que um similar não surge, ou do qual não se ouve, ou vê, mesmo se passarem mil anos, excetuado um só outro, messer Francesco Petrarca.)

ma l’amicizia dell’ottimo Zanobio et mia, celebrata per ispazio di tanto tempo, è stata per tutti li suoi e miei spiriti letifichantemente exprimentata. E tu di ciò sarai grande per te; nè chonfessarei io che Ulises e Diomedes, Achilles et Patrocholus, Damon et Pitias, Nisus et Eurialus, Scipio et Lelius, Chastor et Polus, Hercules et Teseus, Eneas et Achates, o qualunque altri paria di amici furono jamai in questo mondo chontracte et observate, …


(Mas a amizade entre o ótimo Zenóbio e eu, celebrada durante tanto tempo, foi, para o seu e para o meu espírito, alegremente experimentada. E tu dizes o que será grande para ti: ou não confessarei que Ulisses e Diomedes, Aquiles e Pátroclo, Damon e Pitias, Niso e Euríalo, Cipião e Lélio, Castor e Pólux, Hércules e Teseu, Enéias e Achates, ou quaisquer outros pares de amigos, foram, neste mundo, contraídas e observadas…) Note-se que esta carta foi escrita por um comerciante, mercador rico, tornado em grande condottiero — e também note-se a referência à amizade íntima entre Aquiles e Pátroclo, cuja natureza era bem conhecida, mesmo no princípio do Renascimento.

Peculiar família, esta, na qual existem intelectuais e patronos das artes e letras desde o século XIII, quando encontramos o juiz e doutor em cânones messer Leone Acciaioli. Houve outros: além de Niccolò, Donato Acciaioli, amigo de Lorenzo il Magnifico, um século depois de Niccolò; Neri e Antonio Acciaioli, Duques de Atenas, que para seu feudo atraem artistas e humanistas; fra Zanobi Acciaioli, bibliotecário no Vaticano.


Andreina e Lapa, irmãs do grão-senescal Niccolò.

Niccolò Acciaioli teve duas irmãs, de vida quase tão agitada quanto a dele próprio. Andreina Acciaioli, mulher belísima segundo os testemunhos contemporâneos, casa-se com Carlo d’Artus, Conde de Monte Odorisio, que dizem ter sido bastardo do rei Roberto de Nápoles. Ludovico de Hungria, na fúria punitiva contra os assassinos de Andrea, primeiro marido de Giovanna I, faz decapitar o Duque de Durazzo, e logo em seguida, em 1345, Carlo d’Artus. Andreina, viúva, casa-se com Bartolommeo di Capua, Conde de Altavilla, e seus descendentes se espalham na nobreza de Nápoles, até hoje.

Boccaccio dedicou, a Bartolommeo di Capua e à sua mulher Andreina Acciaioli, seu livro De Claris Mulieribus, Sobre as Mulheres Ilustres.

A segunda irmã do grão-senescal foi Lapa Acciaioli, mulher de messer Manente Buondelmonte. Odiada por Boccaccio, que a chamava Lupisca, a loba, teve apesar de tudo uma vida apagada. O casal teve um filho, Esaù Buondelmonte, e uma filha, Maddalena Buondelmonte, que se casou com Leonardo I Tocco, senhor de Leucade e de Zante, falecido em 1381 — a mulher exerceu a regência do senhorio até 1388, em nome dos filhos menores. Um deles, Leonardo II Tocco, nascido c. 1375 e falecido em 1418 ou logo depois, Conde Palatino de Zante, governa Corinto em nome do parente Acciaioli, Duque de Atenas, de 1407 a 1408. Sua filha Creusa Tocco casa-se com Centurione II Zaccaria, genovês, Príncipe de Acaia; dela se sabe que, em 1432, seu genro Teodoro Paleólogo, désposta da Moréia, aprisiona-a, não se sabe o motivo. Teodoro Paleólogo era casado com Caterina Zaccaria, morta em 1462, e era irmão de Constantino XI, último imperador de Bizâncio.

Por que descrever esta linhagem? Porque Sofia, ou Zoè, Paleologina, filha de Caterina Zaccaria e de Teodoro Paleólogo, casou-se com Ivan III, grão-príncipe de Moscou, pais de Vassili III e avós do tsar Ivan o Terrível.

Isto é, Ivan o Terrível era um sobrinho distante de Niccolò Acciaioli.


O bispo de Florença, Angiolo di Monte Acciaioli.

Era filho de Monte Acciaioli, e neto de Mannino Acciaioli, e nasceu em Florença em 1298 — morrerá em Nápoles em 4 de outubro de 1357. Bispo aos trinta anos, recebeu a sé de Áquila como sua primeira diocese. Em 1341 morre o bispo de Florença, e o papa Clemente VI colocou a messer Angiolo Acciaioli na diocese florentina em 1342 contra a vontade das congregações locais, o que resultou em não poucas tensões.

Homem enérgico, messer Angiolo mete-se logo em dois episódios tumultuados da história florentina. O primeiro deu-se logo após sua ascensão à sé toscana, quando começa a pregar, entusiasmado, usando de sua autoridade pastoral, em favor de que se desse o senhorio de Florença ao Conde Gauthier de Brienne, Duque de Atenas. Assumindo o cargo de podestà florentino, Gauthier de Brienne mostra-se um celerado cercado por celerados. Rapidamente se esvai o apoio de que gozava, e em 1343 surgem três conjuras independentes para depô-lo, uma delas sob a chefia do próprio bispo que pregara antes em favor de sua tirania. Advertido das conjuras, Gauthier de Brienne tenta reagir, mas o povo florentino sai às ruas e força a expulsão do podestà, ao mesmo tempo estraçalhando de maneira crudelíssima dois dos principais sicários do Duque de Atenas — que, este, foge de Florença sem maiores compensações. Foi isso em 3 de agosto de 1343. Nesta crise, messer Angiolo Acciaioli, o bispo, é, brevemente e de fato a autoridade máxima florentina, conduzindo-a habilmente, melhor, maquiavelicamente avant la lettre, que o maquiavelismo parece que estava no fundo do caráter florentino daqueles tempos.

Pois o bispo Angiolo tenta, no meio da crise, abrir de novo espaço aos magnati, os antigos nobres, na administração das coisas públicas em Florença, o que lhes havia sido vedado desde as reformas do fim do século XIII. A reação dos grandes mercadores, o popolo grasso, a alta burguesia, o grupo que controlava desde a crise de Montaperrti, em 1260, o governo da cidade, foi enérgica, e o bispo teve que recuar em suas manobras solertes.

Logo em seguida dá-se a crise das casas bancárias Bardi e Peruzzi. Na verdade, tal crise começou em 1339, quando Eduardo III da Inglaterra suspende os pagamentos a seus credores, os banqueiros que lhe financiavam a aventura da guerra dos cem anos. Embora o decreto de suspensão de pagamentos excluísse expressamente os florentinos, estes acabam não sendo pagos também, e depois de uma agonia demorada, em 1345, ao fim do ano, abre falência a casa bancária dos Bardi, e logo em seguida os Peruzzi, Acciaioli, Buonaccorsi, Cocchi, Antellesi, Corsini, e outras grandes companhias.

(Um episódio quase sobrenatural havia marcado o ano para os florentinos: um pouco antes dessa falência em massa, certo dia um lobo magro e esfomeado entra na cidade e a percorre toda, antes de ser morto a tiros. Na mesma hora, do portal do palácio do podestà, cai um escudo de gesso onde estava pintado a flor-de-liz que representava a cidade, fracionando-se em mil pedaços. Os dois incidentes como vistos como o anúncio, o augúrio de tempos de carestia e escassez para Florença.)

Voltando à falência das casas bancárias: o bispo messer Angiolo Acciaioli movimenta-se para resguardar os interesses de sua família e dos seus. Com sua ajuda, e a do parente Niccolò Acciaioli, o grão-senescal, vende-se o palácio familiar, no Borgo de’ S.S. Apostoli, a Mamente Buondelmonte, cunhado de Niccolò, numa transação que provavelmente não era mais que um acerto dentro do clã; e quando o Cardeal Pedro de Toledo usa dos poderes do inquisidor florentino para receber 12 mil florins de ouro que lhe eram devidos, o bispo Acciaioli apela diretamente à corte papal agindo como advogado dos seus, com o que o cardeal só recebe 5 mil florins, e o inquisidor é punido.

Angiolo Acciaioli deixa a sé florentina em 1355, e, com a ajuda dos soberanos de Nápoles, troca-a pela de Montecassino, onde é feito arcebispo. Morre pouco depois em Nápoles, em 1357.


Os Duques de Atenas.

Tem uma historinha para abrir o apetite. Chico Accioli, meu tio-avô, Altamir do Valle e Accioli de Vasconcellos, era oficial de marinha, e como imediato participou da tripulacão do cruzador Minas Gerais, que trouxe o rei da Bélgica ao Brasil, em 1920. O navio parou na Inglaterra, em Portsmouth, e Chico e outros membros da tripulação aproveitaram em foram até Londres. Em Londres, num certo momento, o concierge do hotel diz a Chico que uma sua parenta dos Acciaiolis da ilha da Madeira gostaria de lhe pedir uma audiência.

Audiência? Chico estranha, audiência? mas — vamos em frente, decide. Marca a hora, e lá vem a senhora, de cuja aparência nunca me deram notícia, mas que imagino gorduchinha, rechonchuda, grisalha, de chapéu de florzinhas, quase uma Miss Marple, a não ser pela raposa prateada que a vejo sempre usando nos ombros. A senhora começa a falar cheia de dedos, discute a história dos Duques de Atenas (Chico sabia alguma coisa, mas não dava lá muita bola), fala nos Acciaiolis de Vasconcellos, o ramo original da família na Madeira e no Brasil — e ataca, enfim, poderia Vossa Excelência renunciar aos direitos de seu ramo a tal título, em favor do meu ramo?

Resposta de Chico, no ato: renunciar ao ducado? Não! Dou-lho de presente!

Noto que o Ducado de Atenas deixou de pertencer aos Acciaiolis em 1462 ou 1463, quando janízaros matam o último duque. Se o título não está caduco, não sei o que é caducidade. Acrescento uma observação, que descobri na autobiografia de Sir Osbert Sitwell, Great Morning, nalgum canto. O pai de Sir Osbert, Sir George Sitwell, comprou em 1908 o castelo de Montegufoni, descrito por Osbert como a trumpeting herd of white elefants, uma manada uivante de elefantes brancos.

Se o castelo, só, era uma manada ululante de elefantes brancos, o ducado de Atenas foi uma manada de brontossauros brancos para os Acciaiolis. Porque, em Florença, ninguém queria saber, na família, do título ducal. Houve dois duques importantes: Neri Acciaioli, o primeiro Duque de Atenas, que morreu em 1394, e seu filho Antonio Acciaioli, falecido em 1435, o segundo duque. Não tendo herdeiros diretos o segundo dos duques, valeu-se de uma disposição das patentes e tratados com Nápoles que reconheciam em Neri o senhor do ducado; este passaria aos descendentes de Donato, irmão de Neri. Que o repassa a um filho bastardo, Franco ou Francesco Acciaioli, porque nenhum dos seus filhos legítimos queria saber de um principado num local tão instável.

Agora, os Duques de Atenas. Sua história foi uma reprise, em menor escala, do que havia sido a biografia do grão-senescal Niccolò. Neri Acciaioli, filho de Jacopo Acciaioli e de Bartolommea di Bindaccio de’ Ricasoli, nasce em Florença entre 1335 e 1340. Ainda adolescente, vai para Nápoles, onde seu parente o grão-senescal adota-o formalmente como filho e o envia à Grécia para gerir os feudos que ele, Niccolò, possuía na Acaia e no Peloponeso. Neri destaca-se, neste período, na corte de Marie de Bourbon, princesa de Taranto e (como Caterina di Valois-Courtenay) imperatriz titular de Constantinopla; pode ter sido amante da Bourbon, que era bela e jovem.

(Há um retrato de Neri Acciaioli nos Uffizi, reproduzido nas tábuas genealógicas de Litta sobre essa família: mostra um homem de rosto magro, algo semelhante ao do senescal Niccolò, com uma barba pontuda, tudo enquadrado por um elmo com a viseira levantada.)

Mas tudo começa bem antes, possivelmente pela segunda metade do século XIII. Messer Leone degli Acciaioli funda o Banco Acciaioli, que se firma após 1282, quando os guelfos assumem o controle político em Florença. Os interesses de sua compagna chegam à Tunísia e à Grécia. Sucede a messer Leone no comando da empresa familiar, Dardanno — nome do fundador de Tróia, assinale-se — filho primogênito de Lotteringo ou Tingo Acciaioli, este, noto, sobrinho de messer Leone. Provavelmente desde essa época, ao fim do século XIII, possuem os Acciaiolis feudos na Grécia. Deduzimos isso de uma carta de cessão de bens feudais feita pelo Banco Acciaioli a Niccolò Acciaioli, cessão autorizada pela suzerana daqueles feudos, Caterina di Valois-Courtenay:

…certa bona feudalia posita in casali de La Lichina et de La Mandria, de principatu Achaye…

Bens feudais nos vilarejos de La Lichina e de La Mandria, no principado de Acaia. Nesse mesmo documento lemos quem eram os sócios da Compagna di Ser Leone degli Acciaioli:

…quod nobiles viri, Dardanus olim Tingi de Acciaiolis, dominus Bidignanus olim Manecti de Marocellis, Acciaiolus olim domini Niccole de Acciaiolis, Johannes olim Bonacorsis, Banus olim Bandini et Laurencius Johannis Bonacorsi, cives et mercatores florentini, socii de societate Aczarellorum de Florentia…

A saber: os nobres senhores Dardanno filho do falecido Tingo degli Acciaioli, messer Bidignanus filho do falecido Manecto de Maroncelli, Acciaiolo filho do falecido messer Niccolò degli Acciaioli, Giovanni filho de Buonaccorso, Banno filho de Bandino, e Lorenzo, filho de Giovanni Buonaccorsi, cidadãos e mercadores de Florença, sócios da sociedade dos Acciaiolis de Florença. (Note-se que o nome familiar vem escrito indiferentemente Acciaioli e Acciaroli.)

Nessa mesma época, o grão-senescal Niccolò Acciaioli torna-se senhor de Corinto, através de uma cessão, em 1336, feita pela mesma Caterina di Valois. A senhoria de Corinto passará a seu filho Angiolo Acciaioli, que a cede, em pagamento de um empréstimo a seu primo e irmão adotivo, Ranieri ou Neri di Jacopo Acciaioli.

Nesse tempo, o ducado de Atenas era governado pelos catalães; Neri, em campanha na Grécia, já senhor de Corinto, cai prisioneiro daqueles, e seu irmão Donato gestiona junto aos venezianos para que pressione os catalães a liberarem o Acciaioli. Libertado, Neri toma Mégara, e de lá apropria-se de Atenas, que controla desde 1386 ou 1387. É um governante esclarecido: permite à comunidade greco-ortodoxa que pratique livremente seus cultos, sob um arcebispo que faz procurar e ao qual dá residência na cidade baixa de Atenas. Constroi para si um palácio no Partenon, e também constroi muitos novos edifícios na cidade. Atrai comerciantes toscanos, e também intelectuais, praxe que será seguida por seu filho e sucessor — contra as disposições de seu testamento — Antonio Acciaioli, segundo Duque de Atenas dessa gente.

É formalmente reconhecido pelo rei Ladislau de Nápoles como Duque de Atenas, Tebas, Corinto, Mégara e Platéia, em 1392, com diretos hereditários sobre o feudo, que deve passar às mãos dos herdeiros de seu irmão Donato. Para sua confirmação como duque, Ladislau envia a Atenas o próprio irmão de Neri, o Cardeal Angiolo Acciaioli, arcebispo de Florença, como legado.

Neri Acciaioli morre em seu ducado em setembro de 1394; casara-se, mas não se sabe ao certo quem foi sua mulher, cujo prenome conhecemos de documentos, Agnese. Litta fala que foi uma filha de Filippo Doria, almirante que disputou várias batalhas em Chipre, opinião seguida por Buchon, mas não se tem certeza. De Maria Rendi, filha bastarda de Demetrio Rendi, de Mégara, depois notário em Atenas, que a tinha, a esta Maria, por sua escrava, teve um filho natural, Antonio, que vai sucedê-lo. Teve duas filhas legítimas, mulheres belíssimas segundo o testemunho dos tempos, Francesca, casada com Carlo di Tocco, senhor de Arta e Duque de Leucate, e Bartolommea, casada com Teodoro Paleologo, irmão de Constantino, o imperador de Bizâncio, e désposta da Romênia. Ambas tiveram descendência, em linhas femininas.

Agora vamos pensar um pouco: Neri Acciaioli reina sobre o ducado de Atenas durante cerca de dez anos. Quem o sagra, sanciona como duque, em nome de Ladislau de Nápoles, é seu irmão, o Cardeal Angiolo Acciaioli, um quase papa, pois só não foi eleito sucessor de Urbano VI, apesar de ter a maioria dos votos no conclave de 1389, devido à oposição dos Orsinis. Pois Neri concede a seus súditos uma inédita liberdade de culto. Na verdade, temos aqui o espírito da renascença, ainda em fins do século XIV: a liberdade religiosa, o cultivo à inteligência.

Antonio, bastardo dos Acciaiolis, filho de Neri e de Maria Rendi, aproveitando um vácuo de poder, assenhora-se do ducado e se instala na Acrópole, isso pouco depois da morte do pai. Mas vai lutar e negociar durante mais de dez anos, com a ajuda do cardeal seu tio e de outro tio, Donato, primeiro para conquistar o ducado, e depois para se ver reconhecido como Duque de Atenas, o que consegue num tratado com Veneza em 31 de março de 1405. Viverá até maio ou junho de 1435, sempre soberano do ducado. Governou durante 32 anos a terra de Setines, que é o nome dado a Atenas nos séculos XIV e XV, equilibrando-se pacificamente, sem conflitos, entre os turcos e as potências ocidentais. Para lá atraiu comerciantes, fazendo Atenas uma terra próspera, e intelectuais e artistas.

Casou-se com Maria Melissena-Comnéna, de uma família aliada aos Comnénoi, imperadores de Bizâncio, e dela adotou o nome, dizendo-se Antonio Acciaioli Comnéno. De modo geral, adotou a mesma política esclarecida de seu pai. Não tendo filhos, buscou como disse a sua sucessão em Florença, entre os descendentes de seu tio Donato Acciaioli.

Chamou para Atenas um filho natural daquele tio, Franco ou Francesco Acciaioli, chegado em Atenas em 1412, e casado com Margherita Bardi Malpighi. Franco morreu em Atenas ainda jovem, em 1419, e dois de seus filhos permanecem do ducado, Neri e Antonio, para sucederem ao duque. (Dentre os filhos de Franco Acciaioli e Margherita Malpighi, está a filha Lucia Acciaioli, casada com Angiolo Amadori. Destes foi filho Niccolò Amadori, pai de Benozzo Amadori, que se fixa na ilha da Madeira em fins do século XV, e por este avô de Ginevra Amadori, mãe de Simone Acciaioli, ancestral dos Acciaiolis em Portugal e no Brasil — isto se dermos crédito à carta de brasão passada a Benozzo Amadori, em 25 de abril de 1514, e se identificarmos o “Amonto” Amador desta carta d’armas a Agnolo, ou Angiolo Amadori.)

A Antonio Acciaioli sucedem quatro duques sem maior expressão, no ducado-elefante-branco. Neri II, Duque de Atenas, Senhor de Mégara, etc., reina de 1435 a 1439, quando seu irmão Antonio II o depõe. Este controla o ducado até 1441, quando morre. Volta ao trono Neri II, que reina até 1451. Seu filho Francesco I Acciaioli, Duque de Atenas depois da morte do pai, é expulso pelo primo homônimo em 1455. Morre em Constantinopla depois de 1460, pelo que se sabe convertido ao islã.

O último Duque de Atenas nos Acciaiolis é Franco ou Francesco II Acciaioli, que é criado junto ao jovem Maomé II — Chalcondyla diz que Maomé fê-lo seu amante, seu catamito. Voltando a Atenas, este Franco expulsa o primo de mesmo nome do trono em 1455, faz com que assassinem a mãe daquele, que exercia a regência sobre o ducado, e assume o trono. Dele é por sua vez expulso em 1460, e em 1463 é assassinado por janízaros depois de um jantar, seguindo ordens diretas de Maomé II. Seus filhos Gabriele, Matteo e Jacopo são incorporados aos janízaros, e desaparecem da memória.

E assim termina a soberania dos Acciaiolis sobre o ducado de Atenas. Durou setenta anos; foi um governo próspero ao início, e depois se desfez, com o avanço dos turcos e com a instabilidade de herdeiros que não souberam o óbvio: deveriam ao menos se entender, para que a dinastia mantivesse o controle do ducado. Viraram nota ao pé da página em manual de história da renascença.

Nota tipo conclusão: sempre tive curiosidade em ler a patente que faz Duque de Atenas a Neri Acciaioli. Foi publicada por Buchon, p. 224. Não vou transcrever tudo porque é um blá-blá-blá burocrático atroz. Mas as partes mais interessantes são as seguintes:

Ladislaus, Dei gracia Hungarie, Jerusalem, Sicilie, Dalmatie, Croacie, Rascie, Servie, Lodomerie, Comanie Bulgariaque rex, …



… eidem Nerio et suis heredibus ex suo corpore legitime descendentibus, natis jam et in antea nascituris, imperpetuum civitatem et ducatum predictum Athenarum, … , cum terris, castris, fortelliciis, casalibus, viliis, hominibus, vassallis, villanis, …



… constituimus et ordinamus, ipsumque Nerium et ejus posteros, honore, titulo et dignitate dicti ducatus Athenarum decoramus et etiam insignimus.



Nos Angelus, cardinalis Florentinus legatus et balius, consentimus.

Tradução: Ladislau, pela graça de Deus rei da Hungria, de Jerusalém, Sicília, Dalmácia, Croácia, Ráscia (?), Lodoméria (?), Cumania e da Bulgária…

(Meu comentário: de tudo isso ele era rei só da Sicilia, reino que incluía a parte sul da Itália e a ilha homônima.)

Continuo: ao mesmo Neri e a seus herdeiros de seu próprio corpo, legitimamente descendendo, já nascidos e por nascer, em perpétuo [damos] a cidade e o ducado predito de Atenas, …, com as terras, castelos, fortalezas, casai, vilas, homens, vassalos, vilãos…

Ainda: contituimos e ordenamos ao mesmo Neri e seus sucessores, agraciamos e também damos a insígnia e a honra, título e dignidade do dito ducado de Atenas…

Nós, Angiolo, cardeal de Florença, legado e bailio, consentimus.

(Note-se que Angiolo Acciaioli, que aqui dá seu consentimento à carta patente de Ladislau, era irmão de Neri Acciaioli. Ou seja, um Acciaioli faz duque ao outro.)



Angiolo Acciaioli, Cardeal de Florença; e dois humanistas.

Angiolo Acciaioli nasceu em 1349, também filho de Jacopo Acciaioli e de Bartolommea Ricasoli. Bispo de Rapolla em 1376, assume a sé de Florença em 1383. Em 1384, com apenas trinta e cinco anos, é feito cardeal, do título de S. Lorenzo in Damaso, por Urbano VI.

(Lembro que uma vez Ana Maria, minha prima, me levou e a uma amiga, para jantar fora, numa trattoria que ficava ao lado da igreja de S. Lorenzo in Damaso. Certamente não a igreja original, do século XIV, mas a de agora, uma igreja barroca, sem maior interesse, mole cinzenta e indistinta que pesava sobre nós enquanto enfrentávamos o tagliatelli al sugo com algum acompanhamento sem maiores notabilidades e — disso me lembro bem — bebíamos o vinho da casa, um bom rosso. Dizíamos muita besteira; num determinado momento quis lembrar que aquela era a igreja do título do primeiro dos cardeais Acciaiolis, seis séculos atrás da gente, e Ana Maria, com toda a delicadeza, me interrompeu, não, agora não, Francisco Antonio, não conta isso não. E voltamos às besteiras e à comida cujo gosto, hoje, esqueci.)

No conclave de 1389 chegou, em dado momento, a ter a maioria dos votos, mas não atingiu o quórum qualificado de dois terços, devido à oposição dos Orsinis. Foi quem coroou em Gaeta, em 11 de maio de 1390, a Ladislau de Nápoles. Foi legado papal na Hungria, Dalmácia, Croácia, Bósnia, Valáquia e Bulgária. Morreu em 12 de junho de 1409, e está enterrado na Certosa fundada pelo grão-senescal Niccolò Acciaioli.

Cito ainda, rapidamente, Donato Acciaioli, que nasceu em Florença em 1428 e morreu em Milão em 28 de agosto de 1478, humanista, tradutor de Plutarco, amigo de Lorenzo il Magnifico, a quem designou como tutor de seus filhos. Casou-se com Maria di Piero d’Andrea de’ Pazzi, conhecida em família como Marietta. Donato era filho de Neri Acciaioli, que morreu jovem, com apenas vinte e oito anos, e de Lena, filha do grande Palla Strozzi. Era neto de Donato Acciaioli, governador de Corinto ao tempo do irmão Neri I, Duque de Atenas, e de sua segunda mulher Tecca di Gaggio de’ Giacomini di Poggio Tebalducci.

Último da linha familiar que descendia de Mannino Acciaioli foi frei Zanobi Acciaioli, nascido em Florença em 1461 e falecido em Roma em 1519. Foi prefeito da Biblioteca do Vaticano, e são-lhe atribuídas diversas obras eruditas.


Jacopo d’Angelo da Scarperia, e Laudomia Acciaioli in Medici.

O Cardeal Angiolo Acciaioli foi mais condottiero que religioso, e pode ter sido seu filho ilegítimo o humanista Jacopo d'Angelo da Scarperia, que é algumas vezes dado como um bastardo da família Acciaioli. Scarperia escreveu sobre filosofia e sobre física: neste caso, fez um tratado sobre um grande cometa visto no início do século XV.

E sobrinha-neta do cardeal foi Laudomia Acciaioli, mulher de Pierfrancesco de’ Medici, bisavó do grão-duque da Toscana Cosimo I de' Medici, e ancestral de todos os Bourbons que descendem de Marie de Médicis e de Henrique IV de França. Ou seja, a imensa maioria dos Bourbons de hoje. Isso pega casas reais ainda no trono, como os reis de Espanha e da Bélgica; através de linhas femininas, os reis da Inglaterra — e paro aqui, pois seria enumeração cansativa e inútil.

Laudomia Acciaioli in Medici e seu filho Lorenzo foram protetores de Botticelli, e para este Lorenzo di Pierfrancesco de' Medici, Botticelli pintou a Celebração da Primavera; Laudomia era filha de Iacopo Acciaioli e de sua mulher Costanza de’ Bardi, e neta de Donato Acciaioli, e de sua primeira mulher Onesta di Carlo Strozzi.


O mistério da cripta.

Desço a escada escura, quase tateando com os pés, porque mal vejo o caminho. Um frade cartuxo está a meu lado, e procura num canto qualquer da parede um interruptor de luz. Pronto, achou. Clic.

A luz elétrica mata e banaliza. Ilumina-se a cripta da Certosa de Florença, o mosteiro fundado pelo senescal Niccolò Acciaioli. Vejo, súbito, tudo — mas é como se todo o gosto, todo o cheiro, toda a emoção do lugar desaparecesse. Fica tudo chão, plano, como se as cores da realidade se esmaecessem. O sentido de algum lugar é dado pela emoção que vivemos naquele lugar, e essa luz elétrica, amarelo incandescente, que não deixa nenhum buraquinho sombrio aqui na cripta dos Acciaiolis, mata as emoções que poderia ainda capturar aqui. Como comida de cara boa mas sem gosto, ou com gosto de palha, gosto de papel.

Num canto, lá no fundo da cripta, imenso, perdendo-se nas ogivas do teto, numa parede lateral, está o monumento fúnebre de Niccolò Acciaioli. Mesmo me levantando na ponta dos pés, não consigo ver direito seu rosto, na estátua jacente, em que aparece completamente armado, mas sem elmo. Aos pés do monumento, os túmulos de seu pai, messer Acciaiolo Acciaioli, de seu filho Lorenzo, de sua irmã Lapa Acciaioli in Buondelmonte, a amiga de S. Brígida, a Lupisca, segundo Boccaccio.

Estão todos numa capela lateral, a Capela de Tobias. Abandono-a. Debaixo da abóbada principal está a sepultura do cardeal Angiolo, e de outros membros da família, inclusive a do humanista Donato Acciaioli, o amigo e colaborador de Lorenzo il Magnifico.

Tudo debaixo da luz elétrica acachapante, banalizadora. Deviam chamar um cenógrafo hollywoodiano para iluminar aqui a cripta, como fizeram no Museo Egizio de Turim. Restabeleceríamos a verdade da coisas. A emoção voltaria aqui à cripta dos Acciaiolis na Certosa.

Quando subo a escada de volta à superfície, penso: com uma iluminação bem pensada, este é um belo lugar para fazer a cena final de meu livro ainda não escrito de mistério e fantasia. Essa capela dos Acciaiolis nada deve, em clima fantástico, à igrejinha de Rosslyn.

(Texto tirado do livro Italianos no Brasil Colonial, ainda inédito; na ilustração, o sepulcro de Nicola Acciaioli, da oficina de Andrea Orcagna, na Capela de Tobias, na Certosa de Florença.)

6 comentários:

Carol disse...

Doria, ler o que você escreve é uma delícia!
Bjs,
Carol

Francisco Antonio Doria disse...

Obrigado, Carol. Vai ter amanhã - espero... - uma lenda romântica sobre a família, e depois volto a 68.

confetti disse...

monsieur dorià !!
je n'aime pas votre absence prolongée ! ne nous privez pas de votre écriture, c'est dommage...

Francisco Antonio Doria disse...

Je vais en Europe dans quelques jours. Je vais à Vienne faire une conférence; je préside une session d'un congrès scientifique - et après je vais à Florence, revoir ces ancêtres...

confetti disse...

si vous passez à paris, prévenez moi ! j'aimerais bien vous rencontrer !

bon voyage, profitez de vienne, c'est l'été, du soleil jusqu'à 9 heures du soir...

Francisco Antonio disse...

Hélas! Je n'irai pas à Paris! Mais, peut-être, l'année prochaine :))

Merci pour vos voeux - je veux visiter la maison de Freud et celle dessinée par Wittgenstein qui est, on dit, la traduction visuelle du Tractatus...