sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Histórias de Tatá e outras histórias

Tatá foi meu tio mais velho, do lado de papai. Antonio Adolpho Accioli Doria, oficial de marinha, reformado como mar-e-guerra. Nasceu em 1901 e morreu em 1971, no domingo de Carnaval. Casou-se com Tia Minha Helena (por que o nick? Alguma vez explico), ou Helena Maria Amália Fialho de Castro Silva, nome ao qual juntou ainda assim o “Accioli Doria” de Tatá. (Tem também outra história aí.)

Tia Minha Helena morreu em 98. Era filha do almirante José Machado de Castro Silva, comandante de vários comandos navais e ministro do STM, e de Dona Marieta, Marietinha - Maria Amália Fialho. (Castro Silva do Ceará.) Tem muita história de Dona Marieta, também, que vou algum dia contar, depois das histórias de Tatá.

Tatá era muito alto, empertigado, falava de modo solene. Fazia cara feia em público. Se alguém aí leu o livro de Alfredo Mesquita, Silvia Pélica na Liberdade, Tatá era um pouco feito seu Cézar, José Joaquim de Cerqueira Cézar, lá descrito e caricaturado pela Hilde - só que Tatá não
tinha o cavanhaque do seu Cézar. Tatá era um gozador como o seu Cézar; foi um dos maiores gozadores que conheci. Só vi Tatá de mau-humor uma vez (e depois, depois conto disso; foi para cima de um amigo meu). De sua carreira, foi observador brasileiro na guerra do Chaco, um retiro de três meses que ele tirou de letra lendo Ulysses de Joyce, isso mesmo, e na década de vinte. Quem mandou para ele foi uma inglesa, transa do momento (foi ele que me contou). Reformado, virou diretor da antiga SNAAP - Serviço de Navegação da Amazônia e Administração do Porto do Pará, e depois de re-aposentado, fixou-se no Rio.

Papai tinha adoração por Tatá, seu irmão mais velho; papai era o caçula. Fui Francisco *Antonio* como já disse devido a Tatá e a Tunico, meu tio-avô, tio direto dos irmãos e de papai, Antonio Moitinho Doria, um advogado de muito prestígio - quem tinha diploma superior, nesse meu povo (não era todo mundo), era ou advogado ou médico. Papai comentava que “tinha que ter um Antonio em cada geração”; era coisa dos Dorias baianos, e eu sou o Antonio da minha, Tatá o da anterior, Tunico antes.

(Fazendo as contas, Tunico era Antonio IX, Tatá Antonio X. E essa lista acaba aqui.)

Depois também conto essa dos Antonios. Afinal, se Tatá era Antonio, vale também como história de Tatá.

E vai agora a primeira história.

Margô, Manuel e eu fomos uma vez, aqui em Petrópolis, ao lançamento de um livro na Casa de Petrópolis. A Casa de Petrópolis é mais conhecida, bem, como Casa Mal-Assombrada da Rua Ypiranga. Foi construída em 1884 ou 85 por José Tavares Guerra, um capitalista muito bem sucedido; a casa é uma casa vitoriana, parecida com outras que você pode ver, memória do século XIX, nos Estados Unidos - um ícone desses, a casa de Norman Bates, em Psycho, por exemplo. Do Tavares Guerra passou a seus netos, o pessoal Rocha Miranda. Ao lado, num terreno vazio, um dos netos, o arquiteto, Dr. Alcides da Rocha Miranda, construiu para os irmãos uma casa bem moderna, funcional tipo anos cinquenta, com um jardim de Burle Marx. Na frente da Casa Mal Assombrada, um jardim de Glaziou, jardim landscaped inglês, como os de Capability Brown, no fim do século XVII.

Quem administra a Casa de Petrópolis é Luiz Aquila, o pintor, filho do Dr. Alcides. Uma vez, conversando com ele, perguntei sobre a Casa Mal Assombrada - de gozação, um pouco. E ele me abre um sorriso de Drácula, todo caninos, arregala os olhos, e diz entre todos os dentes, “não é Casa Mal Assombrada, é a Casa Encantada.”

O livro lançado foi o Dicionário de Artes Decorativas, Nova Fronteira, de Stella Moutinho. Bom, fui lá para ver Stella, minha prima, viúva de Paulo Celso Moutinho, primo de papai. Porque tenho me lembrado, sempre, avisita de pêsames que Paulo Celso, Tasso da Costa Doria, e Jorge Moitinho Doria, foram nos fazer, a Tia Minha Helena, a papai e a mim, pela morte
de Tatá.

(Jorge Moitinho Doria *não é* o ator Jorge Doria. Este se chama Jorge Pires Ferreira, e, coincidência engraçada, vem a ser primo no lado materno de minha neta. Jorge, meu primo, era médico, sanitarista, diretor da Fábrica Bangu e membro da Academia Nacional de Medicina.)

Chegaram os três, Paulo Celso, Tasso e Jorge, com cara de velório, claro. Mas começaram logo a conversar entre si e a contar causos, histórias de Estância em Sergipe, terra de meu avô Doria, histórias de gente antiga da família, o tataravô - bisavô deles - padre que pulava a cerca e não podia ver mulher, a prima que era casada e não tinha filhos e sua irmã, solteira e cheia de filhos de vários pais, e piada e piada e piada. De repente papai, a meu lado, chorando de tanto rir, diz, “gente, vocês parem com isso, parem de contar piada, essa é uma visita de pêsames.” E Paulo Celso, direto, “você tem razão, Gustavinho, vamos chorar um pouquinho. Buáaaa. Bom, agora, vocês se lembram da história da tia...”

E foram em frente.

Antes de passar à segunda história, conto um pouco sobre Stella Moutinho, que foi minha madeleine para chegar a Paulo Celso Moutinho, e à visita de pêsames que nos fez devido à morte de Tatá. Stella é filha do Didi,ou Rodrigo Octavio Filho, membro da Academia Brasileira de Letras, escritor e político, tal como seu pai, Rodrigo Octavio Langaard de Menezes.

E' sina: Rodrigo Octavio era neto de um padre baiano, Rodrigo Ignacio de Souza Menezes. Não sei se da família do Agrário de Menezes - Agrário de Souza Menezes; talvez. (E Stella vai casar com Paulo, bisneto do cônego Azevedo meu tetravô; parece mesmo que é sina.) O filho do padre casa-se com a filha de um médico dinamarquês, Teodoro Langaard (pronuncia-se
Langôrd, acento no ô), radicado no Rio. O neto, Rodrigo Octavio, o pai, é escritor e político, assim como seu filho. As duas famílias sempre foram ligadas: quanto Tunico, Antonio, o nono do nome, Antonio Moitinho Doria, meu tio-avô, morre, em 1950, o Didi, Rodrigo Octavio Filho, faz-lhe um discurso à boca da sepultura. Muito tempo depois, em 74, quando visitamos, Margô e eu, Helena Moitinho Doria, última tia-avô sobrevivente, ela me dá o manuscrito do discurso do Didi. Discurso muito emocionado. Um dia publico.

(Tunico, segundo papai, era pouco inteligente. Inteligente era meu avô materno, o Velho Justo, Justo Rangel Mendes de Moraes, outro grande advogado. Preconceito de papai; nada de Justo; injustiça de papai contra o tio. Tunico escreveu um livro de ensaios, Cinquenta Anos de Profissão, surpreendentemente claro e fluido na escrita, e com boas idéias. Texto limpo, sem lugares-comuns. Já são seis gerações de gente que escreve, desde meu trisavô Doria, José da Costa Doria, que é dado como professor num documento de 1833, em Itapicuru, até meus filhos.)

Rodrigo Octavio, o pai, morre em 1944. Tenho dele a reedição de um livro, Minhas Memórias dos Outros, republicado pela Civilização em 1978. Faz um retrato de mais outro meu parente, o velho Prudente, Prudente de Moraes. E, en passant, conta a história da morte do filho bastardo de Prudente, José Marcelino (que chama, errado, de José Prudente). Porque, com aquela cara toda sizuda, o velho Prudente teve, aos dezoito anos, um filho bastardo. O original do testamento de Prudente estava conosco, estava com Tia Neta, que uma vez me mostrou o manuscrito. Não sei onde foi parar. Falava nesse filho, e nas filhas que o Zé Marcelino teve.

Não adianta ir na Genealogia Paulistana; Silva Leme omitiu-o.

(Vocês podem se perguntar como sei de tudo isso. A gente *tinha* que saber. Diziam: “hoje vamos visitar seu Fulano, ou tio Beltrano. Ele é parente assim, assado. Você *não* pode perguntar sobre a mulher dele porque ela é doente, fica internada - doença séria era tabu. O filho dele, Sicrano, também é meio esquisito, mas trata o rapaz como se você não notasse nada. A avó, Dona Filinha, é um encanto. Pergunta a ela pelo pai barão, que ela conta umas histórias engraçadas.” A gente aprendia tudo sobre todo mundo. Viver com esse povo era viver numa complicadíssima teia de relacionamentos super-emaranhados, e você tinha que aprender tudo isso, para se mexer sem problemas, ao menos sem gafes.)

Agora, a história de Tatá. E' a mais famosa de todas. Tem título: Helena não tem umbigo.

Tatá era casado com Helena, ou Tia Minha Helena. No início dos anos 50, como Tatá era diretor da SNAAP e vivia no Pará, os dois vinham esporadicamente aoRio, onde tinham um apartamento pequeno, quarto-e-sala, por aí, espécie de pied-à-terre, num edifício nos começos de Copacabana - esquina de Barata Ribeiro, ainda está lá, o Jabre. O almirante Castro Silva, sogro de Tatá, tinha morrido há pouco num desastre estúpido, e tinham mandado Dona Marieta, a viúva, para o Uruguai, onde a filha mais moça, Mary Castro Silva, era cônsul-geral.

(Mary, ou Maria Luisa Fialho de Castro Silva, era da mesma turma que João Cabral de Melo Neto no Itamaraty. Uma vez, eu já grandinho, Mary me pega, “vem me acompanhar no lançamento de um livro do Cabral.” Lá fui eu; foi no Marimbás. Entrei na fila da turma dos colegas dele do Rio Branco, e, quando me viu com Mary, Cabral botou na dedicatória, “para meu primo Francisco Antonio, com um abraço do João Cabral.” Bom, primos somos, com certeza, nas cucuias pernambucófilas, afinal.)

Começos de março, 51 ou 52; logo depois do carnaval. Mary e Dona Marieta estavam no Rio, de férias; tinham alugado um apartamento junto do de Tatá. Tatá tinha comprado a grande novidade: uma televisão. De repente, aparece no Rio uma funcionária do consulado em Montevideu, que sem ter o que fazer, ia toda noite ver televisão em casa de Tatá e Tia Minha
Helena. Como Tatá mesmo me disse, “seu Chico Antonio - ou seu Chicão, era assim que ele me chamava - o problema não era a mulher todo dia de televizinha; o problema é que ela era muito burra, e vivia dizendo montes de lugares-comuns. E você sabe que odeio conversa chata.” Odiava. Tatá foi uma das conversas mais inteligentes que conheci; adorava conversar com ele.

Uma noite, depois de um chorrilho de lugares comuns, depois que a infamada senhorita se manda, Tatá diz, “amanhã vou aprontar uma tal que nunca mais ela vem aqui.”

Dona Marieta objeta, “Mas Doria, amanhã não, por favor, porque amanhã Dona Sicrana - uma amiga de há muito de Dona Marieta - vem jantar conosco.”

“Vai ser amanhã, Marietinha querida. Não tem sursis. E Dona Sicrana pode ir se preparando para botar toneladas de ovos pela boca. (Isso porque Dona Sicrana, cujo nome não lembro, era muito formal e besta, e quando se incomodava, fazia aquela cara de quem estava botando um ovo pela boca, a tal da cara chupada.)

“Que é que você vai fazer?”

“Não sei. Vai ser a inspiração do momento.”

Dia seguinte. A moça do consulado chega, fila o jantar. Silêncio de todos, menos de Tatá, que conversava muito. De repente, a pergunta fatal, feita pela infeliz: “Comandante Doria, o senhor gosta de carnaval?”

Silêncio pesado. Todo mundo ali tinha horror a carnaval. Quando Tatá abre a boca, é porque chegou a hora. Todo mundo percebe. Começa a guerra:

“Adoro carnaval, minha senhora. Mas, infelizmente, não posso brincar.”

”Por que?”

“Questões de família.”

“Ora, comandante, já sou da família...”

(Grunhidos de Tatá.)

“...e o senhor pode contar.”

(Hesitação; negaças; a moça insiste, Tatá resiste, espicaçando-a.)

Clímax:

“Vou contar.”

Silêncio. Pausa.

Allegro con fuoco:

“Todo ano Helena minha mulher e eu saímos num bloco de nós dois sozinhos. Saímos fantasiados de índios, eu, com um cocar de penas bem emplumadas, e Helena, minha mulher, de biquini.”

(Atenção: 1952. Bikini ainda era o nome do atol, mudando para o nome do maiô de duas peças mínimo.)

“..com penas no soutien e penas na calcinha. Saímos sambando, e brincando de índio, uuuuuuuuú.”

(Tia Minha Helena tinha sumido; Marietinha estava apertada num canto, assustada, e Dona Sicrana punha dúzias de ovos pela boca.)

“Só que: Helena não tem umbigo.”

..... !!!!!

“E vinham aqueles caras de longe, viam que ela não tem umbigo, esticavam o dedo, e enfiavam na barriga de Helena.”

Tatá se levanta: aponta o dedo como um florete, esgrime-o no ar e ataca, enfiando num obtáculo invisível, uma Helena imaginária na sua frente; touché, quando mete o dedo no não-umbigo do fantasma.

“Mas como pode?” A mulherzinha se levanta fascinada.

“Assim.” Repete o jogo, a mise en scène. E vai levando a visita chata até a porta. Chega lá, abre, e diz, “boa noite.”

Foi quando a mulher se tocou. Não apareceu nunca mais.

Tenho o direito de ser como sou: nasci numa família ultra-surrealista.

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Devo ter nascido velhíssimo. Nasci num domingo, 18 de Novembro, ao meio dia, meio dia e meia, em Copacabana. Cresci em duas, três casas muito velhas. A casa dos meus avós maternos foi, digamos assim, a casa dominadora da minha infância. Era em Copacabana, no Posto 6, na Rainha Elizabeth. Primeiro, Rainha Elizabeth, 53. Depois, sei lá por que motivos, Rainha Elizabeth 129. Do outro lado da rua, exatamente em frente, moravam Tia Maria e Tio Werneck. Numa casa que era gêmea com a casa da Ligia, mãe do Luiz Antonio, um garoto que brincava conosco, chato paca. (Só duas diferenças: a casa da Ligia era amarelo-ocre e tinha árvores na frente; a de Tia Maria era branca e sem árvores, só com um canteirinho na entrada.)

A casa dos meus avós maternos era a Casa da Vovó. Ponto. Até porque meus avós paternos morreram logo. Já conto. (Ué, rimou; deixa assim.) Era uma casa imensa, de três andares, normanda, no meio de um terreno de quase mil metros, com um jardim que era quase um mini-parque, cheio de árvores e de esconderijos e de lugares para a gente brincar. O jardim, cercando dois terços da casa, era coberto de areia da praia, fina; de manhã o Oswaldo, o jardineiro, ancinhava toda a areia, e o jardim ficava com cara de jardim japonês. Fomos criados lá, eu, os filhos de Tio Luiz, os filhos de Tia Maria, que morava em frente.

Tinha galinheiro, tanque de patos, canil. Comi muito ovo fresco dali.

(Tia Maria, Maria Moraes Werneck de Castro - nasceu em 1909 e morreu em 93 - era casada com Tio Werneck, Luis Werneck de Castro. Eram militantes comunistas. Tia Maria era amicíssima do Prestes e de suas irmãs - conheci Dona Clotilde Prestes aqui em Petrópolis, passando o carnaval com Tia Maria. Tia Maria aparece em Graciliano Ramos, Memórias do Cárcere, várias vezes, e no Olga, de Fernando Morais. Porque Tia Maria esteve presa com Graciliano, Nise Silveira, Olga Benário - que ela chamava Maria Prestes, toda essa gente.

Já Tio Luiz, o Lula, como Tia Maria chamava, era de direita. Isso mesmo. Meteu-se em tudo quanto é golpe de direita no Brasil, Aragarças, Jacareacanga. Luiz Mendes de Moraes Neto. Morreu de uma morte trágica; não vou falar disso, ao menos por enquanto. Foi horrível.)

A Casa da Vovó era imensa. Contei uma vez: dez quartos. Em baixo, um hall central, uma sala imensa de visitas, uma sala de jantar maior ainda, com mesa para vinte pessoas, uma escadaria, e, junto à entrada, a saleta, espécie de escritório onde Vovô, o Velho Justo, Justo Rangel Mendes de Moraes, recebia os clientes. Logo junto da entrada principal da casa, que era protegida por uma porte cochère. A saleta estava cheia de livros; gozado, romances franceses do fim do século XIX e começos do XX, guias de viagem - uns Baedekers, ainda do século XIX -, a coleção do Henri Robert, Les Grands Procès de l'Histoire, que li sei lá quantas vezes, e retratos. Junto do telefone, pois tinha lá uma extensão do telefone, que era Ipanema-1149, virou 7-1149, e depois, toda minha adolescência, 27-1149 (a gente não esquece mesmo), junto do telefone tinha um busto em bronze de meu bisavô, que mamãe só chamava de Vovô Marechal, Luiz Mendes de Moraes, na farda francesa do exército de começos do século XX. Ficava num canto da sala. No outro canto, um retrato numa moldura especial, a foto autografada do Kaiser, Guilherme II, um garrancho, Wilhelm; o bivô viajara à Europa a convite do governo alemão em 1910, e o Kaiser recebera ao bivô e à bivó em audiência privada; foi quando lhes deu o retrato assinado.

Em cima da porta que ligava a saleta à sala de visitas, porta interna, o retrato do Velho Prudente. Acho que é o melhor retrato dele; foi pintado em 1899, um ano depois dele sair do governo. Mamãe só chamava ao presidente, Prudente o Velho, pois Prudente de Moraes Filho era tio direto dela, e o Neco, Prudente de Moraes, neto, o jornalista, era seu primo-irmão, e, creio, seu padrinho de batismo.

Testemunha no registro de mamãe, esse tio, Prudente de Moraes Filho.

O bivô, Luiz Mendes de Moraes, está em Silva Leme (vol. 7, p. 77, fácil de decorar). Vovô era vaidosíssimo da sua condição de paulista velho, embora tivesse nascido no Rio Grande do Sul - meu bisavô estava servindo lá, casou com minha bisavó, Cecilia Ferreira Rangel, em 11 de Novembro de 1880 (sei a data porque, para homenageá-la, mamãe e papai se casaram no
mesmo dia), “a maragatona da Cecilia.” Vovô vivia me dizendo, “vai à Biblioteca Nacional ver a Genealogia da Família Paulista - citava o livro de Silva Leme com o nome errado - e você vai ver minha família.”

(Família dele, não a minha...)

Um dia fui, tinha uns quinze, dezesseis anos, copiei a linha dos Moraes desde Dom Mem Alão, e ele se emocionou todo. O que, com o Velho Justo, não era pouca coisa. Aliás, Tia Neta, mulher de Tio Luiz e também Moraes, pois era prima-irmã de Vovô, vivia nos ameaçando quando íamos dormir, os primos, e a gente ficava fazendo bagunça no quarto, “ou vocês ficam quietos ou a Princesa da Armênia vem puxar os pés de vocês de noite.” A Princesa da Armênia era, bem, a Princesa da Armênia do Título Moraes, de Pedro Taques e Silva Leme. Mas, para mim, era uma cigana terrível, antepassada arquetípica, apavorante, imensa de poderosa com poderes mágicos. Não era bom desafiar a Princesa.

Volto a Tatá.

A família de papai costumava ir veranear em Friburgo, no sítio de Tatá, o Rosário, em Conselheiro Paulino. (Conhecíamos toda a história do Conselheiro Paulino, porque seu neto Fernando Paulino era, digamos assim, o cirurgião oficial da família.) Dessa vez estavam no Rosário, Tatá e Tia Minha Helena, Dindinha - Conceição, irmã de papai e de Tatá - e papai e mamãe. Eu, devia ter uns dez anos.

Converso com Tatá na varanda do sítio, Tatá lendo jornal. Tatá sentado na Ponte de Comando, uma poltrona preta, reclinável, muito gostosa, art-déco, que está agora comigo aqui em casa, na minha varanda. Jornal aberto na sua cara, Tatá me ouve e fala comigo de detrás do jornal.

“Tatá, você se chama Antonio Adolpho. Papai é Gustavo Alberto. Titio Gilberto é Luiz Gilberto. Como é o nome de Conceição?”

Sai direto, de trás do jornal:

“Maria das Conchas Conceição.”

Dou uma disparada para a cozinha, onde mamãe, Dindinha e Tia Minha Helena estavam ajudando a cozinheira a preparar o almoço. “Dindinha, por que é que você nunca me disse que seu nome é Maria das Conchas Conceição?”

Sai de lá da cozinha, passos firmes, furiosa, Dindinha, magra, alta, empertigada e empinada, chega na varanda e despeja, mesmo assim sem levantar a voz, terrível na sobriedade do comentário, “Tatá, você não tem o que fazer, fica ensinando besteira ao menino?”

Aí Tatá baixa o jornal, pendura os óculos na boca, franze a cara, “Conceição, respeite seu irmão mais velho, não admito que você fale comigo assim.” E fica de cara emburrada, feia, enquanto Dindinha vai embora, toda majestade ofendida.

“Seu Chico Antonio, ela não quer admitir que se chama Maria das Conchas Conceição.”

Levei muito tempo acreditanto nisso. Achava que era um nome de devoção estranho, tipo alguma Nossa Senhora das Conchas, coisa assim.

3 comentários:

Rei de Armas disse...

Caro Fa,

Deliciosas suas memórias. Que bom teu texto, fluido, com citações, recuerdos vívidos, entremeado com as linhas genealógicas. Que os deuses da escrita - bem, hoje, que São Mac ou São PC - te conservem com a verve e o humor. Admirável.

Grande abraço do primo em Moraes y otras,

Marcello Borges

PS - Lembra do livro que cita aquela minha namorada, a Beatriz Moraes de Barros, e se puder me manda uma cópia da linha dela, please.

Francisco Antonio disse...

E' São Mac, um macBook 2 Ghz, 1,2 G ram.

Me relembra qual é o livro que te mando; é da D. Nayze?

Miro disse...

Sou neto de Francisco Mendes de Moraes que por sua vez era filho de José Mariano Mendes de Moraes e Anna Euphazia Carneiro. Se tiver alguma informação sobre José Mariano Mendes de Moraes, por favor, me passe. Um abraço e obrigado.