domingo, 27 de janeiro de 2008

1968, I

Pedro, meu filho, me perguntou hoje se, quando 68 terminou, a gente sabia que havia sido um ano especial. Com certeza: todo mundo terminou o ano desencantado, desesperançado — os milicos haviam baixado o Ato 5 em 13 de dezembro, uma sexta-feira. Estávamos de crista baixa, mas sabíamos que o ano tinha sido um ano diferentão. Cheio de novidades que, a gente pensava, tinham sido fogo de palha: afinal de Gaulle terminava 68 todo poderoso na França, e os ditadores de plantão no Brasil tinham conseguido reimplantar a ditadura, com o golpe contra o Costa e Silva porque o Ato 5 foi, sim, um golpe contra o Costa.

Vou contar tudo, aos poucos. Festas, que foram muitas, como o Baile da Baronesa, que o Jaguar organizou, ou a despedida de Marcito, em casa de Heloisa Buarque de Hollanda, ou a festa que o Smil deu em minha homenagem em novembro, na casa dele — teve até strip tease de uma atriz muito manjada. Vou contar sobre a passeata dos 100 mil. Vou contar sobre o clima de cidade ocupada que vivemos, no Rio, em março e abril, com caminhões da PM passando a toda, sirene aberta, pelas ruas da cidade, apontando os fuzis para as pessoas na rua. Vou contar sobre aqueles com quem convivi: Paulo Francis, que me levou para o Correio da Manhã, o mais importante jornal do Rio, na época, em 1967, e me botou na equipe permanente do “Quarto Caderno,” o suplemento intelectual — tinha disso — mais lido do Brasil; Otto Maria Carpeaux, Antonio Houaiss, todos da redação da Grande Enciclopédia Delta-Larousse; amigos que fiz naquele tempo, como Chaim Samuel Katz e Luiz Costa Lima.

Vou contar tudo isso.

Mas começo com a noite do Ato 5.

Cheguei do trabalho, trabalhava na Editora Delta, era assessor econômico para projetos industriais, jantei rápido. O clima no centro do Rio estava super-pesado; rumores que tinha gente sendo presa, deputados dizendo que o “governo ia reagir” contra a derrota que sofrera no pedido de licença para processar o Marcito. Papai tinha comprado uma tv pequena (era 68: portanto, tv em preto-e-branco) onde assistíamos ao jornal. Bate 8 e meia. Entra no ar o Gaminha, ministro da justiça, com as desculpas esfarrapadas habituais do governo, e aí aparece o Alberto Cury, locutor oficial, vomitando sobre nós o horror ditatorial do Ato 5.

Na hora me senti meio anestesiado. Pensei, “vem de novo a mesma coisa de 64, 65,” dos Atos 1 e 2. Não pressenti que ia ser pior.

Estava anestesiado porque tinha um compromisso, um programinha ótimo, para a noite. Um amigo, o Nando, me havia convidado para sair com duas colegas dele, psicólogas e irmãs; estava na verdade com a cabeça no programa que íamos fazer. Com ou sem Ato 5, fomos ao Bilboquet, uma boate que ficava na N. S. de Copacabana quase esquina de Princesa Isabel. Cheia de luz negra, efeitos psicodélicos, coisa que era novidade nos anos 60. Bebi, dancei, combinei novas dates com uma das moças, e adormeci de madrugada com o Ato 5 nas costas e na memória, mas sem perceber a extensão da coisa, do desastre.

Só despertei quando ia para a praia no sábado, 11 horas, e vi as manchetes do Jornal do Brasil: “Ontem foi o dia dos tolos.” A previsão do tempo: “tempo negro, temperatura sufocante; o ar está irrespirável. Mínima: 5 graus em Brasília...”

Um comentário:

Mario disse...

Boas lembranças. Só um pequeno reparo: era dia dos cegos e não dos tolos, o que saiu no JB. De todos, eles não tinham nada. Aguardo novos posts sobre esse período. Abraço
Mario