terça-feira, 29 de janeiro de 2008

1968, III: De Mao a Piao


Cherchez la femme. Começo com um lugar comum. Naquele comecinho de 68, janeiro, estava saindo com uma menina aluna de sociologia da PUC-RJ. Estava ficando razoavelmente conhecido, porque escrevia regularmente no Quarto Caderno do Correio da Manhã, um caderno de comentários políticos, iniciado em 1966, e que logo evoluiu no melhor suplemento cultural do Brasil — tipo estrela cadente; brilhou rápido em 67 e 68, e foi morto pelo Ato 5. Depois conto como fui parar lá.

A moça me convidou para ajudar num “grupo de estudos” da turma dela. Aspas necessárias: o nome que ela usava era grupo de estudos, e a maior parte dos que estavam lá eram seus colegas de PUC. Com duas ou três exceções, uma delas eu, e a outra um carinha bem diferente daquele povinho dourado zona sul do Rio. Logo logo descobri o que era o grupinho de estudos.

O ponto de reunião era uma casa perto da PUC, na Marquês de S. Vicente, na Gávea. Cercada de árvores e jardins, e tendo no fundo uma piscina imensa, bem azulzinha de azul piscina, e, do lado, um puxado, tipo bar da piscina, compridão, cheio de cadeiras e mesas. Era onde a gente se reunia. No fundo do jardim, muitas árvores, quase em continuidade com o parque da PUC.

Não estou fazendo caricatura: era assim mesmo.

Cheguei lá com a moça, já havia gente reunida. O tal rapaz que não era dos tipos dourados das praias do Rio me entrega dois textos mimeografados, e diz, vamos estudar isso e vamos discutir. Hoje em dia sumiram os mimeógrafos a álcool e a tinta; os a álcool imprimiam coisas em roxo, roxo-azulado, e deixavam nas coisas impressas um cheirinho gostoso de álcool de cana; os a tinta cheiravam mal, e imprimiam coisas numa tinta preta pegajosa, que sempre sujava a mão do operador do mimeógrafo e de quem lia a coisa impressa. (Os primeiros Carlos Zéfiros e assemelhados eram impressos em mimeógrafos a tinta, registro.) Peguei os textos: na folha de rosto do primeiro, Mao Tsé-tung, Sobre a Contradição. Na do segundo, Mao Tsé-tung, Sobre a prática.

Nos anos 50 circulou, com muita fanfarra e elogios, um texto de Stálin sobre linguística. Era coisa profunda, bem argumentada, e exibida sempre para mostrar as habilidades intelectuais do Uncle Joe, em contraste aos talentos muito restritos, com certeza, de Eisenhower. Era um texto interessante, mas com certeza não foi escrito por Stálin: foi escrito por um grande linguista soviético, não lembro agora quem, e assinado pelo Joe himself. Mas os textos de Mao com certeza são dele, e são muito, muito ruins. São um bestialógico sem pé nem cabeça, coleção de trivialidades e lugares comuns sobre contradições na natureza. Pensa bem: contradição na natureza é um conceito vago — os sexos são contraditórios? O azul contradiz o vermelho? Ou será oposição ao amarelo? Em cima de coisas vagas assim, você monta qualqer tipo de teorização com esqueminhas dialéticos.

O outro texto, Sobre a prática, cheirava a auto-ajuda revolucionária. Lixo, também.

No fundo, epifenômenos da famigerada dialética da natureza de Engels, teorização que não tem nada a ver com o que Marx pensou e estudou. Marx é genial; Engels não lhe chega aos pés.

No domingo seguinte publiquei, no Quarto Caderno, um artigo cujo título era: “Sobre os maus textos sagrados.” Trocadilho que irritou muita gente, mas ao qual não resisti. Comecei com uma frase assim: “Sobre a contradição” só não cai em pedaços porque os grampos da lombada são muito firmes.” E fiz uma análise com certeza maldosamente destrutiva daqueles dois textos de Mao. Usei, na minha crítica, muita coisa que sabia, e também idéias tomadas num livro que havia lido uns tempos antes, The Tyranny of Concepts, de Gordon Leff (Merlin, Londres, 1961). E fui, lampeiro e feliz, na terça-feira, para a reunião do grupo de estudos.

Todo mundo tinha lido o que havia escrito. A raiva, no entanto, estava concentrada no orientador do grupo — afinal, melei o jogo dele. Acabei sendo convidado a sair; o rapaz disse de mim que eu tinha desvios ideológicos anárquicos... Saí do grupo e deixei de ver a minha candidata a socióloga.

Não é uma caricatura; é o que aconteceu. Um grupo de estudos de textos de esquerda, bem de esquerda, que se reunia junto à piscina de uma casa muito bonita na Marquês de S. Vicente. Radical chic ao estilo americano? Uma célula de grupelhos ultra num ambiente de alta burguesia? Pode ser. Conto só como foi.

E' o segundo episódio que marcou o começo de 1968, para mim.

Depois me redimi os com dialetas, duas vezes. Em março ou abril, escrevi artigos sobre um livro que Jorge Zahar havia publicado, Dialektik ohne Dogma?, Dialética sem Dogma, na edição brasileira. Trata-se de um texto sobre filosofia da ciência, teoria dos fundamentos da química e da mecânica quântica (costumo dizer que quem fala física quântica não conhece mecânica quântica). Lembro que até consultei a Mécanique Quantique, de Landau e Lifschitz, para fazer minha resenha. Foi muito comentada; o livro de Havemann era uma tentativa de sair do esquematismo dialético barato, e tinha idéias bastante interessantes — e com certeza ia botar Engels se ralando de inveja.

E — como é notório, trabalho há mais de vinte anos com Newton da Costa, pai das lógicas paraconsistentes. Inventadas, entre outras coisas, como uma tentativa de formalizar a dialética de Hegel. Temos junto uns trinta artigos publicados, a maior parte sobre lógica e fundamentos da ciência.

Na ilustração, a capa do livro de Gordon Leff. Disseram que tinha inventado o autor para justificar o que chamaram de “minhas imbecilidades.” Pois está aí o livro. Não foi outro Wurlitzer.

E sobre quem foi Wurlitzer, deixo para o próximo post.

4 comentários:

Ricardo C. disse...

Uma característica do seu texto que me fascina: a de parecer uma coleção de "causos" cariocamente mineira, que só me deixa em dúvida se deve ser regada a chopp, sorvida com cachaça, das bem envelhecidas para que a garganta não queime muito, ou se deve ser acompanhada de várias xícaras de café, coador de pano, por favor. A outra dúvida é se na sala onde se dê essa prosa seja necessário que ao menos um dos sofás seja daqueles de couro bem molenga, um pouco envelhecido, não importa muito se com tachinhas ou não, mas bem final de 60, início de 70. Não, nada de Atahualpa Yupanqui ou Tania Libertad na vitrola, porque o conversê pede menos engajamento latino-americano, e porque usar ponchos no Rio de Janeiro é impossível, não? (risos!!)
E quando li o nome do seu colega Newton da Costa, mais curiosidade me deu. Fiquei matutando sobre a quantidade de lacanianos babando por seus artigos, sem entender absolutamente nada deles, e assim mesmo querendo citá-los em ensaios obscuros cheios de um português mal-afrancesado. (Ou seria um francês mal-aportuguesado?)
Enfim, sigo aqui, firme e forte!

mances disse...

Olá Francisco,

Passei por aqui prá te deixar um abraço.
Estou fora das listas e apenas ocupado com as minhas linhas de S. Miguel, que já estão indo longe.

Desejo sucesso no blog.

Manoel César

Francisco Antonio disse...

Ricardo,

Newton e eu somos ***muito*** amigos. Costumo dizer que el me tirou da sarjeta científica :))

Tem colega meu dos físicos que, ao ver um trabalho meu com o Newton sobre incompletude de Gödel em mecânica, disse, nem li, tinha símbolo que não tenho a menor idéia pra que serve.

Sobre a cerveja: Marcelo Gleiser e o Acácio de Barros, que fizeram mestrado (e doutorado, o Acácio) comigo, discutira muita coisa das tses aqui em casa em cima de umas não poucas bohemias, do tempo em que a bohemia era autêntica...

Francisco Antonio disse...

Manoel César, como vai? Ainda vou te citar aqui no blog, quando escrever sobre os Vasconcellos. Viu o rascunho do livro da Maia?