domingo, 27 de janeiro de 2008

1968, II

O ano começou em andante moderato. Lembro de dois episódios de janeiro. Conto agora o primeiro desses episódios. Logo ao início do ano, Eduardo Portella me convida para uma reunião no Colégio do Brasil, para discutirmos dois números especiais de Tempo Brasileiro, uma das duas revistas de cultura que circulavam no Rio — a outra era Cadernos Brasileiros.

O Colégio do Brasil ficava ali no Largo do Machado, numa casa que abrigava também a editora de Eduardo; no dia a dia, quem cuidava das coisas era seu irmão Franco. Era uma casa dos anos 20 do século passado, com um pórtico, um pequeno hall de entrada, e, à direita, um auditório para umas cinquenta pessoas. Foi num sábado de tarde: cheguei, me apresentei e fui apresentado aos outros colaboradores dos números especiais da revista, seu editor, Chaim Samuel Katz, o Jaime; Sérgio Augusto, que já conhecia como crítico de cinema; Eduardo; Franco; algumas outras pessoas.

Tempo Brasileiro havia editado em 1967 um número sobre estruturalismo — a onda do estruturalismo viera em 1966 da França, e provocou uma brigalhada daquelas na intelligentzia (existia sim, a intelligentzia) do Rio e de São Paulo. Mas foi uma briga interna entre correntes marxistas: havia os que achavam que marxismo e estruturalismo eram compatíveis, e que o estruturalismo aprimorava o marxismo (essa briga vinha da França: um filósofo que depois se suicidou, Lucien Sebag, havia publicado em 1964 Marxisme et Structuralisme). Outros diziam que o estruturalismo tirava o conteúdo humanista do marxismo. E vinha blá-blá-blá que não acabava mais, de um lado e do outro.

Havia também os estruturalistas indiferentes ao marxismo, como Abraham Moles, que tentava formular uma teoria geral das sociedades com base na (assim chamada) teoria da comunicação de Shannon, hoje melhor conhecida como teoria da informação. Ou seja, tiroteio na zona.

Naquele sábado de janeiro de 1968, estava entrando nessa briga toda.

Combinamos ali duas coisas: a revista sobre estruturalismo, um best-seller, ia ser reeditada com um apêndice, para o qual eu escreveria um artigo. Escrevi: sobre a estrutura dos romances de ficção científica. (Disse que reproduziam um arquétipo, o mito salvacionista, o mito da criança divina, estudado por Jung. E misturei alegremente Jung com Lévi-Strauss, irritando assim todas as ortodoxias, da psicanálise anti-Jung e pró-Lacan à turma do marxismo mais tradicional.) Combinamos também fazer uma revista sobre comunicação. Ao fim, um vocabulário de comunicação e cultura de massa. Deste vocabulário nascerá, em 1971, meu segundo livro, com o Chaim, o Jaime, e Lula Costa Lima, o Dicionário Crítico de Comunicação.

Um comentário à parte: o Dicionário, escrito em 70 e 71, ia sair por uma terceira editora. Estava com os originais debaixo do braço, na cidade, no centro do Rio, quando encontro Fausto Cunha — acho que foi descendo do ônibus, acho que quase dei um encontrão no Fausto. Foi ali em frente ao Bob's perto da Maison de France. Vamos tomar um milk-shake, Fausto me pergunta sobre aqueles originais, digo o que é, e ele me faz ir direto à Paz e Terra, que naquele tempo ficava no Edifício Avenida Central, onde Moacyr Félix, diretor da editora, e o Fausto, me convencem a negociar o livro com a Paz e Terra. Saiu com o selo do Instituto Nacional do Livro, isso um livro cheio de verbetes marxistas, no tempo do general Médici (nada a ver com a família florentina histórica, deixo claro). Demos em maio de 1971 uma festa de arromba, subsidiada por uma agência de publicidade, para comemorar o lançamento do livro.

Volto a 1968.

Um mês depois de nossa reunião, o CCC, Comando de Caça aos Comunistas, joga uma bomba no Colégio do Brasil. Alguém comentou comigo então: ser intelectual é um perigo nessa terra. Bom, continua sendo.

4 comentários:

Ricardo C. disse...

Aqui estou, já à espera da terceira parte...

Vim através do blog do seu filho; já viera antes. E desculpe os meus maus modos, aqueles de quem "força" uma intimidade que inexiste — um péssimo hábito adquirido neste Rio de Janeiro, diga-se de passagem, onde estou desde 1987.

A maioria dos nomes do seu relato conheço como personagens, seja de artigos, livros ou em histórias ouvidas por aí. Até aqui, apenas um deles me diz respeito, embora indiretamente: Eduardo Portella, o que "esteve" ministro da Educação, de cuja equipe meu falecido pai foi um dos quadros. Isso me fez lembrar do Prodasec e do Pronasec, (programa de ações sócio-educativas para populações carentes dos meios rurais e urbanos), com um acento fortemente de esquerda, por sinal, e que com a saída do Portella e a entrada do Ludwig perderam a sua independência, deixando o meu pai mais sério, calado, amargo e preocupado, durante os anos seguintes.

Sempre tenho curiosidade sobre alguns possíveis encontros entre figuras da geração do meu pai (nascido em 1934), tanto com gerações mais velhas quanto com mais novas. Digo isso lembrando das discussões que ouvia na sala de casa, ainda criança, algumas polidamente acaloradas, várias delas tendo os rumos de um Brasil distante como mote — distância também geográfica, os endereços ficavam em Miraflores e em San Isidro, Lima (Peru). A maioria dos que participavam dessas reuniões eram funcionários de órgãos da ONU (OIT, em particular), e esse período girou entre 66 e 75, ano em que voltamos ao Brasil — só faltando mencionar que alguns exilados (termo que naquele momento me era estranho) tb apareciam, uns até dormindo por lá.

Enfim, algumas das minhas lembranças resolveram se imiscuir nesta caixa de comentários. Vou dar uma bronca nelas, esteja certo, e voltarei aqui apenas para ler e refletir sobre as suas próprias experiências.

Atenciosamente,

Ricardo Cabral

Francisco Antonio disse...

Ricardo,

Vou continuar amanhã no mesmo tom. Daqui a pouco todo mundo que viveu aquele período foi embora, e a memória se perde. E estava, em 68, num lugar privilegiado, de onde via tudo o que estava acontecendo.

Espera e verás :))

Pax disse...

Também espero a terceira parte desse relato rico e bem escrito. Parabéns.

Francisco Antonio Doria disse...

Herdei (no sentido contrário) o talento do Pedro para escrever :))