terça-feira, 29 de janeiro de 2008

1968, IV: Quem é Wurlitzer?


— A onda agora é conhecer Wurlitzer!

Era fevereiro. Estava em casa de João Rui Medeiros, dono da José Álvaro Editor, um apartamento em Copacabana, na Praça Eugênio Jardim. Muita bebida, boas comidas, discussão furibunda entre estruturalistas e não-estruturalistas. Maior mistura de gentes: políticos, tipo Ciro Kurtz, que era deputado; jornalistas, como Fausto Wolff. Muita gente, uma discussão que já estava chegando no ponto da briga física. Até que alguém berra:

- A onda agora é conhecer Wurlitzer!

Wurlitzer, a onda intelectual de 1968? Porque havia isso, uma sucessão de ondas intelectuais, desde os anos 50 no Rio. Primeiro o existencialismo, e logo em seguida Sartre. Aí chegou, comecinhos dos 60, o marxismo através de Sartre, o marxismo da Critique de la Raison Dialectique. Depois, entrados os 60, uma guinada: a semiótica de Max Bense, que vai inspirar a Karlheinz Bergmiller a criação da ESDI, a Escola Superior de Desenho Industrial, na Lapa.

Aí, devagarinho, vai se aproximando a onda estruturalista, Lévi-Strauss (que, no início, pouca gente havia lido), a vertente psicanalítica de Jacques Lacan, o côté marxista de Althusser, Balibar, Badiou. 1967 foi o ano do estruturalismo: Jorge Zahar publica uma coletânea sobre o estruturalismo onde aparece um texto violentíssimo de Escobar, defendendo o marxismo à maneira de Althusser. Deste artigo de Escobar surge uma briga com Carpeaux, que se prolonga pelo ano todo.

E — no começo de 1968, um nome novo, anunciado ali: Wurlitzer. Na festa em casa de João Rui, a coisa pega fogo de novo, uns poucos defendendo Wurlitzer, dizendo maravilhas de Wurlitzer, os outros, a maioria, irritados, meio com cara de panaca, sem saber quem era, o que dizia Wurlitzer.

Era alemão? Perguntavam os que não sabiam de Wurlitzer — afinal, o alemão era uma barreira impossível de se ultrapassar; lia-se Sartre porque todo mundo, tout le monde et son père lia francês. Mas Heidegger... quem chegava lá? Só Carpeaux, Anatol Rosenfeld, Willy Lewin. Os Grandes Eruditos. E mais ninguém. Não, não, Wurlitzer era Uurlítzer, americano. A festa terminou sem que os ignorantes-de-quem-era-Wurlitzer soubessem muito mais sobre aquela nova onda.

Se bem me lembro, essa discussão sobre Wurlitzer virou até nota em coluna social, nos dias seguintes à festa.

Passa um tempo. Estou num barzinho na Sá Ferreira, perto da praia. Uma vitrola daquelas grandonas, jukebox, cheias de discos, rebrilhantes de luzes de tudo quanto é tipo, toca música sem parar. A toda hora vai alguém lá, mete umas fichas, e renova o estoque de música. Um amigo meu se levanta da mesa, me puxa pelo braço, e diz, vem ver a Wurlitzer.

Era A Wurlitzer? Era. Rebrilhando de luzes e cromados, bem no alto, a vitrola mostrava a marca: Wurlitzer.

Era esta A Wurlitzer da discussão em casa de João Rui, da nova onda de 1968...

2 comentários:

confetti disse...

mr doria,
une nuit à salvador, j'étais insomniaque et en zappant à la télé, je suis tombé sur la chaine "senado" que je ne connaissait pas; ils diffusaient un documentaire dont je n'avais jamais entendu parler : c'était jp sartre à sao paulo, assis sur le bord d'une chaise, entourée de gens assis par terre, tout autour, comme s'ils étaient agenouillés...
devant lui, un cameraman et son assistant, une enooorme camera à l'épaule, de celles jurassiques !
et sartre disait " l'existencialisme c'est seulement un moment politique, je serai un idiot si je pretendais que l'existencialisme veuille dire autre chose" hahahha
il parlait en fumant clope sur clope( je parie que c'était des boyard, la cigarette des intellos de l'époque ) assis sur le rebord de la chaise, les gens buvant ses paroles...en regardant bien on voyait simone en arrière...c'était la seule femme de l'assemblée !
j'aurais voulu enregistrer ce document...sartre "se démolissait" génialement, avant meme que dans les années 90, toute sa théorie soit mise en cause....sartre je l'adore, j'adore son attitude cinique, j'adore ses livres compliqués, j'adore son oeil de poisson mort, sans compter qu'il a fondé mon journal preferé, Libération, sans lequel ma journée ne commence pas ! :))

Francisco Antonio Doria disse...

Il y a une histoire merveilleuse de son séjour au Recife. Zé Octavio, un de nos amis (il a été prof de ma femme) lui a invité chez soi pour une feijoada ou quelque chose comme ça. Sartre y est allé, mais il resta tout muet, sans rien dire.

Il reste presque inaperçu. Tout au coup Zé Octavio lui cherche: disparu. Où est Sartre? Disparu, volatilisé...

La cuisinière explique tout: je lui ai renvoyé, dit elle. Era um chato, calado, emburrado...